Personagens

Por trás da carne: “O abate dos frangos me fazia chorar”

Fotos: Food Safety Brazil/Andrew Wong

Em 2014, desempregada, Carmem decidiu procurar emprego em um matadouro de frangos na região de Londrina (PR). Ela passou pela triagem e foi enviada com outros novos funcionários para visitar as instalações.

“Quando chegamos no setor de abate, me recusei a entrar. Havia frangos vivos de cabeça para baixo, desesperados, gritando e se debatendo em vão naqueles ganchos, tentando escapar daquela morte tão triste.”

Mesmo com a recusa e o frequente mal-estar, não demorou para Carmem ser obrigada a conhecer tudo que ocorre lá dentro. “Eles molham todos os frangos para que o choque [eletronarcose] seja mais forte, pra se debater menos – alguns até desmaiam e outros não.”

Também são mergulhados em tanques de imersão de água fervente. “Alguns passam por isso ainda vivos, porque se esforçam pra não morrer. É desesperador pensar naquele sofrimento. Eu chorava e minha pressão subia. Me falavam que era normal no início, que depois me acostumava.”

Sofrimento começa muito antes

Carmem não se acostumou e lembra que o sofrimento dos frangos se inicia muito antes.

“Começa desde a ‘pega’ nas granjas, quando os trabalhadores correm para pegar muitos frangos. No desespero, eles bicam. Com raiva, maltratam os frangos – uns quebram a perna ou asa e os jogam machucados dentro das caixas”, relata.

E acrescenta: “São viagens longas e as caixas vão tão cheias que alguns chegam mortos ao destino. São sufocados pelo calor. Horas e horas apertados dentro de caixas – com sol e calor ou chuva e frio.”

Outra prática pouco conhecida pelo consumidor, segundo Carmem, é que é normal apertar a barriga dos frangos para forçar a defecação quando estão pendurados antes do abate.

“O frango sente dor e bica o trabalhador. Alguns quebram o bico, a perna ou a asa – torturam os frangos. Isso engrandece a crueldade. Nada do que mostra na TV é realidade. De perto, o sofrimento é muito pior.”

O canto de quem não quer morrer

Em uma madrugada, por volta das 2h, Carmem deixava o trabalho na avícola quando ouviu um canto lamurioso de uma ave. “Aquilo me chamou a atenção e pensei: ‘Essa hora cantando, tão triste.’ Quando olhei bem, vi uma carga cheia de frangos chegando para o abate. Dentro daquele caminhão estava o animal que ouvi cantando. Essas lembranças, esse cantar, nunca vou esquecer. Nunca saiu da minha mente.”

Carmem conta que teve vontade de libertá-los das caixas. “Deu um desespero. Mas como eu poderia fazer? Eram caminhões e mais caminhões, dia e noite entrando no frigorífico”, pontua.

À época, seu trabalho se resumia em embalar miúdos. “Vinha pé, fígado, moela e coração. Eu pensava na aflição de cada coração antes de chegar nas minhas mãos. Passava muito mal, fiquei deprimida e pedi demissão. Até hoje tomo remédio controlado. Quando fecho meus olhos, ainda vejo aqueles caminhões chegando com aqueles frangos – alguns com a cabeça pendurada fora das caixas, já mortos.”

Observação

Carmem é um nome fictício para preservar a identidade da entrevistada.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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