Ouviu som estranho vindo da carroceria onde transportava porcos para o matadouro. Achou que era não era nada e continuou dirigindo. Mas o som continuava, incomodava. Insistiu em não ouvir e colocou música. Não resolveu, e concluiu que o som que vinha da carroceria era real, e não apenas real como desconfortável.
Naquele dia, sem ajudante, levou o caminhão para o acostamento e desceu. Não havia mais som e achou que estivesse delirando. Voltou para a cabine e continuou dirigindo. “Mas que diabos!” Parou de novo e não percebeu nada de diferente.
Estava escuro, não conseguia ver os porcos, identificar seus olhos, suas formas, nada. Mas não queria arriscar abrir por preocupação de que algo pudesse acontecer. Já na cabine, não ligou o caminhão, apenas fechou os olhos e ficou em silêncio por dois ou três minutos. Nada, nada, nada – nenhum som. “Tudo bem.” Pegou a estrada.
Som retornou, já não era irreconhecível, era diverso. Porcos choravam na carroceria, e gemiam, grunhiam. Quanto mais dirigia, mais doía em seus ouvidos. Acelerava e os porcos choravam ainda mais. Apertou o volante, cerrou os dentes e franziu a testa. Não queria descer ou ver a carroceria. Choro de porcos continuou e logo veio a chuva. Animais se debatiam, lutavam pela vida.
Olhando pela janela, achou que água tivesse virado sangue. Não desacelerou, perdeu o controle do caminhão, atravessou a pista contrária e invadiu um velho posto abandonado. Não bateu em nada. Foi só um susto. Continuava escuro, e a chuva ficou mais barulhenta do que o choro dos porcos. Quando desceu, viu sangue escorrendo pelas rodas. Sem hesitar, abriu a carroceria.
Estava vazia, apenas rastros de resistência, medo e alguns dejetos ressequidos que a chuva amolecia. Coçou os olhos e lembrou dos porcos que deixou mais cedo no matadouro. “Choravam que nem criança”, monologou, sentindo cheiro de quem já não existia.
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