Tremia de ponta-cabeça a galinha. Chorou e achou que a galinha também quando o sangue desceu pelos olhos. Lágrima de uma era sangue de outra. Pingavam em velocidades diferentes. Da galinha? Acelerava, se avolumava e virava espelho de dor num fundo de lata.
Som da morte também entristecia. Pensou no coração que não era seu, fraquejando num corpinho contraído, e desejou que nada daquilo tivesse acontecido. Mas o que fazer sobre a vida que partia?
E partiu. Depenaram e colocaram as penas num saco. Abriu e passou as mãos. “Viveu e morreu com essas penas, que estão aqui sem ela; e ela sem nada logo ali.”
Reencontrou a galinha, que não era mais galinha, nua e inteira, com o corpo pálido e olhos vazios que miravam um ponto que não era uma direção. “O que será que ela viu pela última vez? O que não queria ver, né?”
Tristeza aumentou diante do corpo mole da galinha sobre a mesa, porque sabia que sem vida só resta matéria vazia. Continuou com a cabeça ligada ao corpo por uma tira. Olhou bem onde a lâmina cortou.
“Hoje de manhã, ela brincou, brincou sim, e ontem também e anteontem.” Conhecia alguns hábitos e vontades da galinha. Parecia outra criatura, mas quem ela via era a mesma, ainda que sem vida.
Então alguém chegou para remover o que não seria comido. Diminuiu mais um pouco e já não tinha cabeça – desconectada do corpo por um puxão que cobria sua face com a palma da mão.
A menina desejou que isso acabasse, não somente ali. Imaginou a carne da galinha cozinhando e lembrou dela ciscando.
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