Mais um angelim-vermelho deitou para abrir espaço para uma nova formação de pasto na Amazônia. No início da noite, toda a mata derrubada emitiu luz invisível ao olho humano, mas não à visão do gado que a percebia à longa distância.
A boiada sentiu-se atraída e começou a correr em direção à luz – uma luminosidade morna que era como afago em suas orelhas. Até o vigor dos animais mudou. Corriam como jamais correram e a luz renovava suas energias o tempo todo.
Cercas eram destruídas e esmagadas como se não fossem nada. Em minutos, ganharam a velocidade dos animais mais rápidos que habitavam a floresta, e que desapareceram daquela região desde a chegada das máquinas e da violência contra tudo que era natural.
As pastagens evocavam o não pertencimento, e a natureza reagia. Angelim-vermelho sangrava, assim como aquele pedaço de floresta caído que transferia suas últimas energias para a boiada que corria. Eram milhões de animais, e o chão tremia, como tremia.
Funcionários das fazendas tentavam contê-los, mas não conseguiam, porque a energia que chegava aos bovinos também era drenada dos humanos que reagiam. E a manada não nativa de milhões corria enfileirada e ladeada, obstinada, mirando apenas a luz e tentando alcançá-la.
Olhos humanos tinham dificuldade em acompanhar a boiada, e as vozes não saíam. Gritar era não emitir nada. Qualquer um que tentasse conter o gado perdia o controle sobre sua vontade e corpo. Humanos não tinham vez, estavam ali apenas para testemunhar, sem capacidade de atrapalhar.
Quando a boiada chegou onde o angelim deitou, uma grande passagem se abriu e os animais não nativos a atravessaram, desaparecendo, assim como seus rastros e a passagem. Já não havia boiada, e quem saberia onde encontrá-la? A natureza a levou para longe da humanidade, de sua indesejada e destrutiva vontade.
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