Categorias: Meio Ambiente

Impacto ambiental da carne é 113 vezes maior do que o da ervilha

Foto: Fabio Nascimento

Não há dúvida de que um bom motivo para deixar de consumir carne é o seu custo ambiental. Afinal, carne é um produto que depende da criação de animais para abate, e esses animais, criados em grande quantidade, quando não demandam grandes pastagens que dependem cada vez mais de desmatamento, demandam grande volume de ração e suplementação, além de muita água.

Ou seja, em qualquer situação a criação de animais para consumo em grande escala, que corresponde à grande demanda da população, é ineficiente. O reconhecimento consciencioso mais simples e realista em relação a essa questão parte da seguinte premissa: “Não seria mais prático consumir vegetais em vez de animais? Já que demandam menos recursos, menos terra e menos água.”

Além disso, exemplo comum da insustentabilidade da agropecuária é o fato de que a soja, que é o vegetal mais produzido e exportado pelo Brasil, por exemplo, tem a maior parte de sua produção destinada a alimentar animais criados para consumo – mais de 70%, conforme dados da Aprosoja. E não por acaso, é o vegetal mais associado à derrubada de mata nativa no Brasil, o que motivou a criação da controversa Moratória da Soja.    

Grande parte da produção da leguminosa é convertida em ração, promovendo toda uma cadeia de produção de bovinos, suínos e aves. Para se ter uma ideia, só um boi ou vaca pode receber até três quilos diários de farelo de soja em sua dieta.

Por outro lado, um estudo publicado na revista Science pelo pesquisador Joseph Poore, da Universidade de Oxford, aponta que, por grama de proteína, a carne bovina, por exemplo, tem um impacto ambiental 113 vezes maior do que o da ervilha.

Mais emissões e mais impacto ambiental

Isso explica também por que hoje a ervilha é um dos ingredientes preferidos dos fabricantes que desenvolvem produtos à base da leguminosa e o promovem como alternativa muito mais sustentável em comparação com a carne.

Hoje, embora a Organização das Nações Unidas (ONU) não esteja exatamente engajada em promover de forma mais clara e engajada uma dieta à base de vegetais, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) já destacou muitas vezes que pelo menos 14,5% das emissões globais de gases de efeito estufa são provenientes só da agropecuária.

Já em relação a todo o sistema alimentar, a predominância de impacto ambiental negativo das proteínas de origem animal é insuperável – chegando a 57% das emissões totais de carbono, conforme estudo publicado em setembro na revista científica Nature Food.

De acordo com outro estudo publicado em 2019 no periódico da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (Pnas), a carne gera 35 vezes mais impacto ambiental do que os vegetais, considerando toda a cadeia produtiva e todos os indicadores.

E o futuro?

A pesquisa intitulada “Multiple health and environmental impacts of foods”, e realizada por David Tillman, Jason Hill, Marco Springmann e Michael A. Clark, da Universidade de Oxford e Universidade de Minnesota, destaca que uma porção de 50 gramas de carne vermelha gera 20 vezes mais emissões de gases do efeito estufa e, dependendo do sistema de produção, até 100 vezes mais uso da terra do que uma porção de 100 gramas de vegetais.

Não é preciso se esforçar também para entender que destinar grandes áreas para a produção de alimentos para animais é um desperdício. Afinal, temos condições de parar de criar animais e utilizar menos áreas para aperfeiçoar com mais excelência e qualidade a produção de vegetais e proteínas de origem vegetal.

Em um mundo com uma população atual de 7,8 bilhões, e onde dezenas de bilhões de animais são mortos para consumo por ano, não há como não perceber o quanto isso é surpreendente, e não de forma positiva.

Ademais, se hoje os números são esses, quantos recursos naturais a agropecuária demandará se a criação de animais para consumo continuar crescendo nas próximas décadas?

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) estima que será necessário ampliar em 70% a produção de alimentos até 2050 em comparação com 2009 para atender a demanda. Não podemos ignorar que hoje a aceleração do desmatamento já é primariamente associada à demanda por carne e por maior volume de soja para alimentar animais criados para abate. Então não resta dúvida de que uma mudança de consciência e de hábitos é urgente.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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