Quando pegam pelas orelhas, será que sabe que é o fim chegando? Abre a boca, geme, solta grunhido. Reação multiplicadora, dor compartilhada. Outros agem como se sentissem nas próprias orelhas. Mais bocas abertas, mais gemidos, mais grunhidos.
Todo dia é a mesma coisa. “Quem vai e quem fica é como se fosse ‘questão de sorte’?” Não, de peso, de carcaça, de morte. Quem já testemunhou e ficou também treme só de ver alguém se aproximar. É só “questão de tempo”, que pode ser daqui a pouco, amanhã ou depois.
Desespero de porco é dissimulado. Tem gente que vê graça. Bicho com medo, sem chance de escapar, agonizando sem entender, tentando se proteger. Faz som que dizem não ter sentido. É pra não dar ideia de que porco é porco. Mais fácil assim.
Estresse acumulado faz bater com força contra a parede. Um tenta morder o rabo do outro, mutilado, com dente serrado. Caem no chão, um por cima, com olhos perdidos, oscilantes. Espuma ganha forma grossa no canto da boca.
Hora de separar. Choque no lombo coloca dor e ordem na pocilga de concreto. Mais trauma. Sai andando meio torto, com pouca força, vacilante. Não consegue grunhir. Solta som abafado, pouco audível e cai noutro canto.
Tem buraco pequeno no canto da parede – como se existisse pra encaixar olho de porco. Deita no aperto do espaço que resta e mira no estreito de fora. Para de tremer e de gemer. É diferente. Nunca viu aquilo. Nem pisca. Vem outra ordem pra levantar. Não reage.
Leva choque, corpo reage, mas o olho não deixa de mirar pelo buraco. Mais choque, mais choque, mais choque, mais choque, treme até não poder, e o olho continua no buraco, sem vida, mas mirando lá fora.
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