Categorias: Pequenas Narrativas

Quando sentiu desgosto em comer carne

Pintura: Albert Guasch

Sentou-se à mesa com a família e olhou para a carne. A viu crua e alongando-se pela toalha, quase encostando no chão, pingando mioglobina. Cada gota que caía no chão fazia barulho tremendo que doía-lhe os tímpanos e atravessava a consciência. Ó, queria fatiá-la para estimulá-la a um tipo de regeneração? Sim, foi uma interpretação.

Teve péssima impressão. Ao paladar, não pareceu nada instigante ou agradável. Sentiu repulsa e viu mortalha de carne e então outra coisa que não era coisa. “Que faz este morto em nossa mesa?”, perguntou ao pai, que não respondeu.

A mãe também não. Os irmãos não tinham olhos, não porque eram cegos, mas porque foram apagados de alguma forma. Só tinham bocas e salivavam com os ouvidos vedados.

O pedaço de carcaça crescia, com a gordura avolumando-se nas pontas e tocando-lhe os dedos da mão como se quisesse apalpá-los. Era ele quem sempre possuía a carne e vê-la querendo possui-lo fez sentir pelos nascendo na língua e gosto desagradável e intenso de ferro.

Sua garganta doía, como doía – queria fechar-se para qualquer coisa que pudesse descer. De repente, sem mudar de expressão, viu faces por toda a carne. Elevavam-se para observá-lo de perto, tocando-lhe os lábios e o nariz. Sentiu tristeza e terror. O coração disparou e todos os sentimentos foram reduzidos à vergonha.

Ainda ouvia ossos quebrando e imaginou um animal desejando que fossem colocados de volta no lugar para que pudesse mover-se sem dificuldade. “Que podem fazer sem os ossos?”, sussurrou para si mesmo.

Então imaginou um animal caminhando, usufruindo de movimento, tendo prazer em manifestação singela de sua capacidade física de sentir o mundo. “Ele jamais o faria sem a saúde dos ossos.” E são estes que tantos lambem e descartam como se tivessem vindo ao mundo presos a um pedaço de carne – sem corpo, sem vida.

A porção de carcaça já não pingava, não alongava-se nem parecia disposta a chegar até ele. Continuava sobre a mesa, sendo retalhada mais uma vez por facas. Sentiu-se distante dela, inexistindo qualquer possibilidade de alcance. “Porque entre mim e a carne o que resta de predisposição?”

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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