Quando vi um bovino morto no campo, notei que motoristas passavam sem dar atenção ao corpo sem vida, que diminuía. Não sei dizer há quanto tempo estava ali. Também não encontrei quem pudesse informar.
Não havia casas por perto, nem na propriedade nem naquelas que se avizinhavam. Disseram que “alguém denunciou e passaram por lá, mas apenas olharam e foram embora.”
Era então um corpo abandonado, que decrescia aos olhos dos poucos passantes. “Mas que passantes o olhavam?” Quando o encontrei, sua pele era um tecido enrugado que raleava os ossos. Já não tinha olhos.
Um corpo seco e miserável numa cor como extensão do chão. Se fosse escultura, poderia ser de ausência, de vazio de vida, de indiferença, de murchidão da fome. Por que não seria, mesmo sem ser escultura?
Viram naquele corpo uma embalagem, e que sem o conteúdo desejado que fosse descartado? Esvaziou-se ou foi esvaziado? De longe, a pele parecia papel, e essa fragilidade era expressão do corpo morto, que o sol tocava sem fazer brilhar.
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