Viu um bezerro caído na estrada. “Foi atropelado?” Parou o carro e desceu. O animal estava sozinho e os motoristas desviavam. Um ou outro curioso reduzia a velocidade, olhava e seguia. “Será que é porque é um bezerro?”
Ligou para a concessionária, mas o dono do animal apareceu primeiro. “Isso não é bom”, disse o recém-chegado. Uma das patas estava torcida. Viu a lucidez do animal que tentava levantar apoiando-se nas outras patas e logo caía.
O dono, acompanhado de um ajudante, pediu que se afastasse um pouco para que pudesse examinar melhor o bezerro. De repente, um disparo. “Que tristeza! É uma tristeza sem tamanho. Uma pena. Que pena!” – foi o que ouviu do dono.
Ficou sem reação. Recolheram o animal, o jogaram na carroceria da caminhonete e partiram. Antes viu o corpo mole do bezerro, sua cabeça caída, sua ausência de vida. Quando o socorro chegou já não havia somente uma mancha de sangue, mas duas.
Confuso sobre o que aconteceu, lembrou da expressão do bezerro. Sentiu remorso. Esfregou as mãos no rosto. Sim, tudo real. “Quanto vale a vida de um animal?” A pergunta não surgiu pela vontade.
“Como é fácil matar a qualquer momento uma criatura como aquela. A posse sobre um animal é violentamente permissiva. Há uma crença de que quando se é dono é você quem sabe o que é melhor para o alvo de sua posse. Mesmo que não saiba ou não se importe, se alguém vem ao mundo por sua vontade e recursos, o que deve ser assegurado em primeiro lugar são seus supostos direitos sobre aquela vida. E esse direito significa o não direito do outro.”
Dito isso para si mesmo enquanto observava o sangue, pensou no olhar do bezerro, em sua fragilidade e no desinteresse do dono em saber o que houve com o animal. Depois soube que o terneiro não foi atropelado, mas caiu de um caminhão que transportava bezerros que seriam descartados. “É o efeito de nossa mesa.”
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Sensacional.