Categorias: Pequenas Narrativas

Uma lâmina serve quanta violência no matadouro?

Ilustração: Jo Frederiks

Ver um animal vivo e pouco depois observá-lo morto causou-lhe mal-estar. Estava ali para testemunhar o aparato da violência industrial. “O quanto você diria que é eficiente?”, ouviu. Não soube responder ou talvez soubesse, mas preferiu não fazê-lo.

Com vida e sem vida, corpos eram pendurados em sequência, em ordem de pré-morte e morte, e não conseguia ver onde terminava porque estendia-se para longe da clareza de sua visão.

Não sabia que matadouros poderiam ser tão imensos, até perceber que é tendência de nosso tempo, do aumento do apetite por criaturas que sangram até tornarem-se somente carcaças penduradas pelos pés.

A quantidade de sangue que observou daria para encher uma piscina. Imaginou como seria convidar os consumidores para banharem-se naquela vermelhidão com cheiro concentrado de ferro.

“Quantos ficariam contentes? Não são estes que mantêm este lugar em plena atividade? Toda essa eficiência é cobrança do apetite. Então o banho seria um bônus, mas que não será porque este sangue é outro produto. Farinha e outras coisas mais…que usam também para alimentar outros animais que terão fim pariforme.”

Achou intrigante como um animal é visto como menos animal do que já foi no passado, porque tudo favorece conveniente dissociação. “E para quem come parece até algo que enche-lhe o coração.”

Percebeu que mesmo quando chegam vivos é impossível ignorar cheiros que só podem ser associados à morte. É como se chegassem mortos.

“Toda criatura que entra num matadouro para ser vítima é alguém que já morreu e que pode ou não saber. Sim, há os que sabem e os que não sabem, mas todos saberão em algum momento.”

Logo mais os mortos seriam substituídos por vivos, também tornados mortos, num ciclo interminável de barbárie institucionalizada. “Uma lâmina serve quanta violência?”

Olhou para um animal esfolado, que ninguém fora dali chamaria de boi, mas somente de carne, e para um boi ainda vivo que caminhava.

“Quem diria que são o mesmo numa diferença de tempo que resume-se a um breve passeio? Uma chegada é uma partida à base de coisas que nunca desejaríamos a quem queremos bem.”

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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