Categorias: Pequenas Narrativas

Quantos animais estão acuados na imundície?

Foto: Andrew Skowron

Observando um porco, sentiu inquietação. O animal naquela imundície, acuado, demonstrava temor só de estar diante duma criatura humana.

“E o que isso diz sobre ele que não diz sobre nós? Acho que diz mais sobre nós do que sobre ele”, disse, reparando os olhos baixos do pobre seviciado apenas por sua condição não humana.

Não mantinha pés firmes num retângulo alongado e estreito de concreto sujo e riscado. “Os riscos? Falaram que das vezes em que quis sair dali sem poder. Vão se acumulando enquanto por baixo das unhas sangue seco vai se encrustando. Se levanta um pé, logo se vê casca de dor. E a dor reside só ali? Claro que não. Olhe toda a extensão…”

A parede escura também estava riscada. “Da automutilação, saltos malsucedidos e coisas mais que vêm do sofrimento e da resistência à sujeição. E as orelhas marcadas e o dorso pintado? Dono de si? Nunca!”

O focinho do porco parcialmente descorado, a umidade e as gotas que pingavam revelavam um estado ingente de desconforto. Quando ameaçou tocá-lo, ele recuou.

Não simpatizava com mãos humanas. “Por que será? Nem precisa responder.” Sentiu cheiro acentuado e nauseante que não soube definir em outras palavras.

“Mas pra que definir? A mim, bastou saber que estava ali, e era terrível sentir. E pergunta se vinha daquele animal? Não, vinha do ser humano que empurrava todo esse fedor para ele.

E dizem que ‘é assim mesmo, do bicho.’ Mas se é do bicho, não deveria surgir naturalmente pelo bicho? Se não é assim, então como dizer que é do bicho?”

Continuou olhando para o porco, que recuou até bater o coto, um dia um rabo, numa grade. Tremelicou e guinchou. Dali já não iria mais por vontade própria, que é apenas reação a uma infeliz condição.

“Aquela era a dimensão de seu mundo.” De repente, alguém veio. O porco resistiu e o arrastaram para fora pelas orelhas com tiras de plástico fixadas. “Seu corpo sumiu, assim como seus olhos, e nunca mais o vi. Alguém o viu, num prato, mas não reconheceu.”

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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