Opinião

Quantos animais mortos as pessoas armazenam no refrigerador?

Se as pessoas que consomem todos os tipos de alimentos de origem animal avaliassem realmente o conteúdo de seus refrigeradores (Imagens: Tras Los Muros/Dana Ellyn)

Quantos animais mortos e fatiados as pessoas armazenam no refrigerador? É difícil dizer, prever, ainda mais quando um produto dissociado de sua própria identidade é um combinado de descaracterizações, existências diluídas e reduzidas a massas disformes e despersonalizadas mecanicamente.

Mesmo uma porção de carne moída pode resultar do abate de mais de um animal, se a primeira fonte já estava próxima do fim. “Miúdos” então nem se fala. Por si só a palavra “miúdo”, em referência aos órgãos dos animais, e que as pessoas consomem aos montes em poucos minutos quando são provenientes de animais de pequeno porte como aves, já é uma banalização e superficialização da realidade que precede o que se come. O mesmo podemos falar de embutidos como mortadela, presunto, salame, etc…

Se as pessoas que consomem todos os tipos de alimentos de origem animal avaliassem o conteúdo de seus refrigeradores, considerando origem, não seria difícil concluir que talvez mais de uma dezena de animais mortos (ou muito mais do que isso) foram compartimentados e abrigados na cozinha depois de mortos – e sequer estou falando de animais inteiros. Alguns pedaços aqui, alguns pedaços ali, se juntarmos tudo o que temos? Fragmentos do que um dia foram corpos que se moviam, que transmitiam reações e experimentavam sensações.

Se pegamos um pedaço de bacon, que nada mais é do que a gordura subcutânea extraída da barriga ou do traseiro de um jovem porco, a quem não é permitido viver para além de 22 a 27 semanas (com sorte), estamos diante de um produto que não existiria sem grunhidos, sem temor, hesitação, exasperação – sem animais debatendo-se pela própria vida – sem uma grande quantidade de sangue que se esvai de forma tão absurdamente fluída que seria possível pintar o chão da morte de carmesim.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

4 semanas ago

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal?

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal? Há…

1 mês ago

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos?

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos? Em 2024, o Brasil bateu…

1 mês ago

O consumo humano transforma animais em prisioneiros de seus próprios corpos

A prisão é o corpo: além do matadouro O consumo humano transforma animais em prisioneiros…

2 meses ago

Animais, pela ética do amor ou do cuidado?

Amor ou justiça: por que a ética do cuidado é mais eficaz A premissa de…

2 meses ago

Por que não é uma boa ideia usar o termo “feito de plantas”

Pode parecer coerente usar o termo “feito de plantas” em relação a alimentos ou pratos…

2 meses ago