Quantos animais mortos e fatiados as pessoas armazenam no refrigerador? É difícil dizer, prever, ainda mais quando um produto dissociado de sua própria identidade é um combinado de descaracterizações, existências diluídas e reduzidas a massas disformes e despersonalizadas mecanicamente.
Mesmo uma porção de carne moída pode resultar do abate de mais de um animal, se a primeira fonte já estava próxima do fim. “Miúdos” então nem se fala. Por si só a palavra “miúdo”, em referência aos órgãos dos animais, e que as pessoas consomem aos montes em poucos minutos quando são provenientes de animais de pequeno porte como aves, já é uma banalização e superficialização da realidade que precede o que se come. O mesmo podemos falar de embutidos como mortadela, presunto, salame, etc…
Se as pessoas que consomem todos os tipos de alimentos de origem animal avaliassem o conteúdo de seus refrigeradores, considerando origem, não seria difícil concluir que talvez mais de uma dezena de animais mortos (ou muito mais do que isso) foram compartimentados e abrigados na cozinha depois de mortos – e sequer estou falando de animais inteiros. Alguns pedaços aqui, alguns pedaços ali, se juntarmos tudo o que temos? Fragmentos do que um dia foram corpos que se moviam, que transmitiam reações e experimentavam sensações.
Se pegamos um pedaço de bacon, que nada mais é do que a gordura subcutânea extraída da barriga ou do traseiro de um jovem porco, a quem não é permitido viver para além de 22 a 27 semanas (com sorte), estamos diante de um produto que não existiria sem grunhidos, sem temor, hesitação, exasperação – sem animais debatendo-se pela própria vida – sem uma grande quantidade de sangue que se esvai de forma tão absurdamente fluída que seria possível pintar o chão da morte de carmesim.
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