Quando um matadouro fechou, parou em frente e observou a demolição. Perdeu as contas de quantos caminhões testemunhou em direção àquele lugar.
“Por tantos anos, a última parada de tantos animais. Quando eu comia carne, desviava os olhos para não reconhecer minha responsabilidade sobre suas vidas. Alguns olhavam em minha direção, e a indiferença de antes tornou-se algo que queimou aos poucos dentro de mim, alheio à minha vontade.”
De repente, uma poeira subiu tão alto e teve a impressão de ver a cabeça de um boi se desfazendo quando uma enorme parede caiu. “Hoje acho que era minha indiferença que eles derretiam com seus olhos grandes e expressão curiosa, que não me parecia inquiridora, mas sim instigante, como um convite para enxergá-los e reconhecer que existem.”
Para ele, os outros animais não nos julgam, mas nos observam e sabem o que fazemos. “Muitos confiam até na hora de morrer, e o choque vem pela surpresa de uma traição que acontece em tantos lugares deste mundo afora – inclusive agora.”
Também compreendeu que muitas das interpretações que cresciam em relação aos animais eram exercícios de uma consciência em transformação. “A mudança vem do incômodo, e o incômodo nos leva a um desenvolvimento mais amplo de percepções e considerações, porque queremos aliviar, superar isso.”
E há situações em que o nosso alívio depende do alívio que desejamos proporcionar aos outros. “Foi o que entendi e não dissimulei, porque eu também era a causa de suas mortes, do fim de suas vidas. Se meu desconforto vem do desconforto deles, que é manifestação de empatia, de compartilhamento, preciso fazer algo sobre isso. Ou deveria fingir por toda a vida? Sei que não conseguiria.”
Quando viu o matadouro reduzido a um grande amontoado sem forma, onde surgiria uma cooperativa de pequenos produtores de leguminosas, desejou apenas que a mudança não parasse ali. “Quantos matadouros deixariam de existir com o fim de nossas indiferenças?”
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