Categorias: Pequenas Narrativas

Quem é criado para consumo não tem lar

Foto: Stefano Belacchi

Olho para a escuridão que domina um espaço não humano, mas que não é não humano, é humano imposto ao não humano. Todo mundo amontoado e um olhar de normalidade em relação a essa realidade. Por que é normal amontoá-los e mantê-los assim? Porque dizemos que sim.

Milhares de animais no mesmo barracão. E o estresse de viver em multidão? Não há possibilidade de lar. Quem é criado para consumo não tem lar. Só espaço de brevidade. Como as relações podem ser construídas? Tudo é sobre celeridade. Crescer rápido demais. Morrer cedo demais. É a ânsia sem fim por mastigar esses corpos.

Ausência de gaiolas pode favorecer uma ilusão. Não é o barracão uma grande gaiola? Falam em liberdade. Então por que não abrem as portas? É sobre a liberdade de estar preso, de não ter escolha, de percorrer alguns centímetros até esbarrar em outro frango. Liberdade de morrer com 35 dias.

Ou de morrer antes e cair no chão, passando o dia entre os vivos, até alguém dizer que é relevante a remoção. Não será comido. É só descartar. Evita caixa, caminhão, choque, pendura e degola. Seria melhor ser comido? Muitos olham e veem uma “criação de repetições”.

Faz sentido, se é sobre ciclo e morte, mas não faz se é sobre indivíduos. Um indivíduo não se repete porque vemos nele uma repetição. Vivem na multidão e morrem na multidão. Agitação, tensão, substituição. Quando um pescoço é cortado, outros também.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • A celeridade de abreviar os ciclos e ritmus da mãe natureza, do reino vegetal e do reino animal já nos trouxe o desequilibrio de toda a vida sobre nosso amado planeta...e se vive só para sobreviver, quando ao final só nos resta a morte...e quem se amontoar nesse barracão terá o triste destino de ser degolado !

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