Categorias: Contos e Crônicas

Quem gostaria de morrer para ser comido?

Foto: Tommaso Ausili

Ficou parado e deixou a imagem de animais felizes em morrer ocupar seu ideário. Da carne à carne. Bovinos, suínos, galináceos e outros mais.

Com pouca idade, que é quase sem idade ou semidade, corriam matadouro adentro, com caminhões, sem caminhões, sem funcionários motivando-os com violência ou não.

Só gáudio, e mesmo os sem dentes sorriam, de repente, com dentes níveos emprestados de outras bocas. Os que chegavam logo atrás saltavam de alegria dentro das carrocerias.

Viu muitos acenando para toda gente que os ultrapassava e vice-versa. Expressavam, sem palavra, como com palavra, que estavam contentes pela servidão, pela morte, pela destruição.

Enfiavam a cabeça para fora, por aberturas em coração numa adorável carreata, e exibiam pescoços, na altura em que a degola arranca-lhes não apenas o sangue, mas a vida.

Vibravam, guinchavam, cacarejavam e mugiam de satisfação, e cascos estalando e tocando semelhanças. Palmas e palmas, entre eles, entre outros. Sim. Fedor? Nenhum, pura e prazenteira olência do fim.

Nada fede, só inspira e apetece. Do lado de fora, arremessavam flores para os radiantes viajantes a caminho do abate e cartõezinhos de agradecimento pelo delicioso sacrifício.

Seguravam os talos com os dentes e faziam reverência, inclinando a dianteira, quase encostando a cabeça no assoalho, e mantendo as pernas traseiras bem firmes e eretas.

Como não agradecer pelo privilégio de morrer para alguém comer? Lágrimas humanas misturavam-se à saliva grossa da apetência que pingava no asfalto e fora. “São maravilhosos! Por nós! Sempre por nós!”

Depois penduraram-se de ponta-cabeça e balançaram como se tivessem sido degolados – sincronizados. De lá pra cá, de cá pra lá. Caíam no chão e levantavam, contentes pela egrégia performance.

Ah! E amontoaram-se, mimetizando corpos mortos – línguas de fora e olhos opacos, com aspecto de vidro ruim. Aplausos continuaram por todo o trajeto até o matadouro.

Então parou de analisar as embalagens dos produtos derivados de animais – da carne a tudo o mais. “É o que me diz, é o que evoca, na absurdidade cotidiana.” Ainda viu uma criatura mostrando como obter o melhor corte de si.

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David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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