Abriram um freezer cheio de peixes. Notei que ninguém fez qualquer referência a eles como animais – nem como eles. Diziam “isso” e “isto”, dependendo da proximidade.
O pronome demonstrativo revelava uma ausência, a ausência do alguém. “O alguém que nunca foi ou o alguém que já não é?”, refleti. “’Isso’ porque já não tem vida ou isso quando ainda tinha vida?”
Esfregavam as mãos pelos peixes, viravam de um lado e de outro, e continuavam entre o “isso e o “isto”. “Se não fosse visto como ‘isso’ antes de nascer, como seria ‘isso’ agora?”, continuei.
Percebi que o “isso” era mais usual, porque mesmo quando deslizavam as mãos por um peixe era como se não estivessem tocando um peixe.
“Isso mesmo?” O “isso” tinha olhos arregalados e uma boca bem aberta, de morte por asfixia. Mas não posso dizer somente “uma boca bem aberta”. O “isso” morre de forma diversa.
Expressões podem ser diferentes ou se repetir sem que sejam idênticas. Uma boca mais aberta que outra, uma reação de cada indivíduo manifestando à sua maneira a dor de morrer.
Não se vê pessoas abrindo freezers para comentar sobre olhos e bocas de peixes, ainda que tragam uma expressão que é final.
“Aí está o peixe em seu último momento, como sucumbiu.” Quem diz isso?
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