Vencedor do Nobel da Paz de 1952, o filósofo e teólogo alemão Albert Schweitzer, não tinha como preocupação somente o impacto humano na vida de outros humanos, mas também o impacto humano na vida de outros animais.
No livro “Os Grandes Pensadores da Índia”, ele conta que foi por meio das revelações de Schopenhauer sobre o que Schweitzer chama de “pensamento da Índia” que ele passou por uma mudança em seu espírito.
“Tenho uma simpatia especial pela ética indiana porque ela não considera apenas as relações do ser humano com o seu semelhante e com a sociedade, mas também a sua atitude para com todos os seres.”
O taoísmo também teve influência sobre Schweitzer, que em sua obra referencia o mandamento de que não devemos consumir nem a carne nem o sangue de nenhum ser vivo, assim como não matá-los nem causar-lhes mal.
Para Schweitzer, em sua autobiografia “A Minha Vida e o Meu Pensamento”, a ética dos seres humanos em relação a outros humanos não deve ser vista como mais do que um fragmento da ética; e porque, segundo ele, não pode ser vista como o “todo da ética”.
Para reconhecermos a validade do que ele diz basta considerarmos que a maior parte dos animais que habita este planeta não são humanos, e ainda assim podem ser e são prejudicados por humanos. Portanto ele defende uma ética mais responsável, que considere a vida a partir da importância dela para quem vive, não restringindo-se ao ser humano.
Ainda em “Os Grandes Pensadores da Índia”, ele referencia, com base nos jainistas, que não se deve matar, maltratar, injuriar, atormentar ou perseguir nenhum animal. Esse, concorda Schweitzer, é o real preceito da religão proclamado pelos sábios que têm uma compreensão mais profunda do mundo.
Infelizmente a recepção da afirmação da importância de não matar nem maltratar nenhum animal é recebida de forma capciosa dependendo do contexto. Exemplo disso está na crença das pessoas de que ao comer animais, mas não participar diretamente da matança ou de qualquer mal causado a um animal, elas não têm responsabilidade sobre isso, ainda que a violência e a matança não possam ser desvinculadas do ato de consumir.
Essas referências, como as encontradas em “Os Grandes Pensadores da Índia”, como podemos reconhecer a partir das colocações de Schweitzer, são usadas por ele também para reproduzir sua posição contrária ao mal humano contra outros seres. Afinal, ele não as traria se não concordasse com elas.
Além de mostrar também que fora do Ocidente já existia a defesa de uma ética do cuidado com outros seres, Schweitzer, reconhecendo a importância de uma ética mais inclusiva, chama atenção para um olhar que não provém do Ocidente, mas que pode ser considerado pelo Ocidente no que é observado em relação a uma outra percepção dos animais. Essa consideração influenciaria uma outra maneira de pensar os animais – como podemos perceber também na referência que ele traz de Schopenhauer e que também podemos encontrar em “O Mundo como Vontade e Representação”, de 1819.
Mas isso também não significa que o “pensamento da Índia”, como apontado por Schweitzer, representa “toda a atitude indiana”, até porque na Índia também há pessoas que participam da exploração animal e que se alimentam de animais. Logo sua posição vai mais ao encontro daqueles que na Índia já viviam e vivem a ahimsa e a promoviam e a promovem, ou seja, o princípio da não violência baseado no que o filósofo alemão percebeu como uma ética mais inclusiva e que “tocou-lhe o espírito”.
É válido citar também que no livro “À Beira da Floresta Primitiva”, publicado originalmente em 1921, Schweitzer faz críticas ao uso de tração animal, quando observa que é terrível “a sorte dos pobres animais de carga”. Ele relata que em uma ocasião encontrou dois homens sobre uma carroça pesadamente carregada de madeira e que não se movia.
“Com gritos altos, eles fustigavam o pobre animal. Simplesmente não consegui passar […]”. Schweitzer acredita que se tivesse ignorado aquela realidade, pior seria. Como o animal não tinha forças para tirar a carroça do lugar, e de onde ela não saía por causa do peso, ele sugeriu que tirassem parte da carga e empurrassem a carroça para trás. “Até que nós três colocássemos a carroça em movimento. Eles ficaram muito desconcertados, mas obedeceram sem responder”.
Saiba Mais
Albert Schweitzer recebeu o Nobel da Paz por seus trabalhos humanitários no continente africano, onde suas experiências influenciariam suas críticas ao colonialismo.
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