Por muitos séculos, e possivelmente desde o princípio da civilização, sempre encontramos um jeito de culpar outros animais pelo surgimento de doenças, como se eles chegassem em algum lugar e do nada fizessem, ‘à luz da maldade ou da ‘inerência biológica’, brotar um vírus que se espalha pela humanidade” – como muitos ainda acreditam, às raias da desinformação, quando se fala também em coronavírus.
Talvez um dos casos mais emblemáticos até hoje de zoonoses seja o da peste bubônica no século 14 – que matou 25 milhões de pessoas na Europa – mas somente em 2018 veio à tona um estudo publicado no periódico científico Proceedings of the National Academy of Science reforçando que os ratos, demonizados à época, levaram a culpa pela doença disseminada por pulgas e piolhos humanos.
Estes se alastraram como consequências de más condições de higiene, que surgem por dois fatores – displicência ou falta de acesso, esta segunda associada à pobreza, miséria, intensificada pelas desigualdades sociais. Séculos depois, após a Segunda Revolução Industrial, não satisfeitos em criarmos animais “soltos” para matarmos e comermos, decidimos confiná-los antes de massacrá-los – claro que visando mais lucro.
Mais tarde, com o surgimento das cadeias de fast-food e a ampliação do apetite voraz da humanidade por carne nos anos 1950, uma década depois que Henry Ford inspirou Hitler a construir campos de concentração baseados em matadouros, começamos a intensificar ainda mais o confinamento de animais. Afinal, “tempo é dinheiro”, e assim os animais reduzidos a alimentos passaram a ser mortos mais rápido.
Nesse cenário, seja pelo convívio muito próximo com outros animais, condições insalubres ou pelo desenvolvimento de estresse, ansiedade e anomalias comportamentais e físicas que surgem em um estado constante de privação, favorecemos, a partir da intervenção humana com fins de consumo, o surgimento e/ou a ampliação da disseminação de inúmeras doenças – que exterminam “somente” animais ou que são zoonóticas.
Dois exemplos recentes que acredito que não fogem à memória de ninguém são os da Gripe H1N1, transmitida por porcos (que se assemelha em alguns aspectos à Gripe Espanhola de 1918), mas sem que os porcos sejam culpados, e o da Gripe H5N1, transmitida por aves como frangos – que também não são culpados, mas que culminam em óbitos não humanos e humanos.
Esses animais não decidiram se reunir em grandes quantidades em chiqueiros ou aviários para se submeter a um sistema de privação e alimentação que, além de favorecer o surgimento de patologias, visa o seu próprio abate em um curto período de tempo. Não, quem os submeteu a essa situação de vulnerabilidade foram os humanos.
Há inúmeros outros exemplos de zoonoses no decorrer da história da humanidade que poderiam ser evitadas, mas que insistimos em semeá-las com base em nossos hábitos de consumo – e algumas retornam com mais intensidade e mais letais do que em qualquer período precedente.
Além disso, temos ainda outro problema cada vez menos discutido entre a população em geral que diz respeito à resistência antimicrobiana. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), em diversos países, 80% do consumo total de antibióticos ocorre na agropecuária. A maior parte é utilizada para estimular o crescimento em animais que não estão doentes.
Segundo a OMS, o uso excessivo e indevido de antibióticos em animais criados para consumo tem agravado o problema da imunidade de determinados agentes infecciosos e comprometido tratamentos. Alguns tipos de bactérias que causam infecções graves em humanos já desenvolveram resistência a inúmeros remédios disponíveis. Sendo assim, mais uma prática humana que favorece o desenvolvimento de doenças e suas consequências que atingem animais e pessoas.
Em 2018, a Universidade de São Paulo (USP) identificou presença generalizada de bactérias resistentes a antibióticos em amostras de carne de porco comercializadas em grandes redes de supermercados do Brasil, como Carrefour, Extra, Pão de Açúcar e Walmart, conforme divulgado pela organização Proteção Animal Mundial.
Em 2013, a ONU publicou que 70% das novas doenças que infectaram seres humanos nas últimas décadas têm origem animal. Ou seja, está se tornando mais comum que doenças mudem de espécies e se espalhem na população, em meio ao crescimento das cadeias de agricultura [no caso, a agropecuária] e de abastecimento alimentar.
A ONU alerta que a expansão de terras agrícolas em espaços naturais, juntamente com um ‘boom’ mundial da produção animal, significa que “o gado e os animais silvestres estão mais em contato uns com os outros, e nós mesmos estamos mais em contato com os animais do que nunca”.
O coronavírus não foge a esse padrão, conforme reforçado em matéria da CNN que aponta que zoólogos e outros especialistas lamentaram que o comportamento humano aliado à destruição do habitat de animais permitiu que doenças que antes existiam somente na natureza, mas sem grande potencial de proliferação, hoje chegassem às pessoas e em proporções alarmantes – como também no caso do coronavírus.
Eles dizem que existem duas lições simples que a humanidade deve aprender. Primeiro, que os morcegos, tão apontados como responsáveis, não são os culpados e podem realmente ajudar a fornecer a solução. Afinal, é fácil apontar o dedo para as espécies hospedeiras.
“Mas, na verdade, é a maneira como interagimos com eles que levou à propagação pandêmica do patógeno”, enfatiza a publicação. Em síntese, é justo concluir que semeamos muitas doenças quando nos alimentamos de animais e/ou interferimos em suas vidas, sejam criaturas domesticadas ou silvestres.
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