Separada do bezerro, uma vaca mugiu por semanas. Tentaram “de tudo”, menos trazer o filhote de volta, que já não existia. Sobre a separação, o administrador da fazenda apenas argumentou que “já deu e que o patrão não permite roubo de leite” – como se bezerro fosse ladrão.
Era o quarto “perdido” da mesma vaca, e a cada filho levado a duração do luto aumentava. Mais uma vez, escondeu o leite e por tempo mais longo. Na terceira semana mugindo, conseguiram forçar a ordenha, mas o que saiu foi considerado impróprio para consumo.
No mesmo dia, a vaca parou de mugir pela primeira vez desde a partida do bezerro. “Estragou o leite de propósito”, alguém comentou. No fim da tarde, ela foi colocada na carroceria de um caminhão e enviada para o abate.
Pode imaginar pedaços de hambúrguer – muitos são feitos de vacas consideradas improdutivas, temperamentais, velhas ou que apenas possuem um “pé ruim”, ainda que tenham a idade de uma pequena criança humana.
Apesar disso, dizem que ela não parecia tão incomodada porque não mugiu sequer uma vez a caminho do matadouro. Não recuou na pista da morte nem no box. Não se debateu, não, nem com tiro e degola. Nem fez barulho quando morreu, como se não houvesse nada ali, e alguém disse: “Porque já não tinha vida.”
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Maravilhas da indústria do leite. Triste.