Afirmar que ser vegano não é suficiente não é sobre não ver importância em alguém somente ser vegano. É sobre reconhecer as limitações do movimento vegano e a necessidade de que mais veganos envolvam mais pessoas para que mudanças realmente significativas ocorram para transformar a realidade dos animais.
Afinal, como o movimento vegano é pequeno, isso torna necessária uma participação ativa no envolvimento de mais pessoas. O movimento hoje não tem força suficiente para promover grandes transformações.
E se uma minoria dentro de uma minoria busca, de alguma forma, conscientizar as pessoas sobre o veganismo e o que é relevante ao veganismo, se isso se tornar uma realidade ainda mais dominante, o que ocorrerá no futuro?
Se veganos são minoria e tem-se uma crença de que mudar somente nós mesmos é o suficiente, “porque já estamos fazendo a nossa parte”, sem ver a necessidade de aproximar mais pessoas, como isso mudará a realidade dos animais? Publiquei vários artigos nos últimos meses que convergem também para uma reflexão sobre isso.
Enfim, para mudar a realidade dos animais, não podemos contar somente com a nossa própria mudança. O que fazemos hoje ao sermos veganos é antagonizar tudo que é prejudicial aos animais, dentro e fora das relações de consumo. Mas isso não está resultando na redução da exploração e morte de animais, por exemplo, que, na verdade, continuam crescendo.
Então não é coerente a afirmação de que “estamos salvando animais”. É mais correto compreender nossa mudança como uma recusa em participar do mal contra tantos animais porque entendemos que são indivíduos com interesses próprios e que, portanto, não devem ser tratados como fins em interesses humanos.
Em vez de “um vegano salva 200 animais por ano”, se isso é sobre não participar da morte de animais para fins de consumo, o correto seria dizer que “um vegano deixa de financiar a morte de 200 animais por ano”. Afinal, um vegano não está livrando 200 animais do matadouro. E, com base no que apontei antes, o movimento vegano não está impactando na redução do uso de animais para consumo.
Tudo isso expõe uma urgência, uma necessidade de envolver muito mais pessoas em ações e mudanças que contribuam para impactar positivamente na nossa relação com outros animais.
Se a libertação animal e a superação do especismo são objetivos, nada disso pode ser alcançado se acredito que está tudo bem em viver o veganismo de forma passiva – em crer que fiz minha escolha e isso que importa, não importando o que os outros farão.
A realidade dos animais não mudará se eu achar que está tudo bem se outras pessoas não mudarem. Não ver problema nisso entra em conflito com o próprio sentido do veganismo. Não há sequer como reduzir o abate de animais sem luta, sem aproximar mais pessoas.
Se os resultados não estão surgindo, é claro que isso reflete também um baixo engajamento vegano e o que preocupa mais ainda é que é um baixo engajamento dentro de um movimento ainda pequeno.
Mesmo o envolvimento de pessoas não veganas em ações que favoreçam o veganismo depende do engajamento e do crescimento do movimento vegano. Afinal, que outro movimento se articulará para mudar a realidade dos animais considerando tudo que é preconizado pelo veganismo? Nenhum.
Passividade como obstáculo:
A postura “fiz minha parte, não cabe a mim mudar os outros” é incoerente com o objetivo de libertação animal. Se o especismo é um sistema de opressão, combatê-lo exige ação coletiva.
Crescimento insuficiente:
Com apenas 3% da população global vegana (segundo levantamento do Instituto Ipsos), mesmo que todos fossem ativistas, seria pouco. Mas o problema é agravado porque uma minoria dentro dessa minoria se engaja ativamente.
Abates anuais superam 80 bilhões de animais terrestres (FAO) + trilhões de aquáticos (Fishcount).
Se aceitamos que animais são indivíduos com direitos, então nossa obrigação moral não termina em não prejudicá-los – inclui fazer com que outros também não os prejudiquem.
Sem ampliação do movimento e de mais engajamento, continuaremos vendo estatísticas de abate crescerem. É preciso que transformemos recusa individual em ação coletiva transformadora.
Leia também:
Como o ativismo vegano pode encolher nos próximos anos
Movimento vegano tem alta desistência de ativistas
Como o exagero de uma abordagem positiva prejudica o veganismo
É um erro veganos subestimarem a abordagem ética
Como o marketing prejudica o veganismo
O sentido do veganismo não pode ser banalizado
Resistência à autocrítica no movimento vegano é um problema
É correto sacrificar animais para o nosso alívio?
Usar o termo “carnista” é péssimo
Vegano e plant-based não são a mesma coisa
Produtos veganos caros beneficiam o veganismo?
Por que a oferta de produtos veganos não transformará a realidade dos animais
Não há causa mais urgente do que a vegana
Veganos “de verdade” defendem outras causas?
Acreditar que o veganismo só é político em conexão com outras causas é especismo
Veganismo combina com consumismo?
Como o estresse e o cansaço sabotam o veganismo
Longas jornadas de trabalho dificultam envolvimento com o ativismo vegano
Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…
No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…
No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…
Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…
Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…
Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…
Visualizar comentários
Vivemos num mundo de maldade. Não só os animais sofrem nos matadouros, como os paupérrimos, que não são poucos, mal têm o que comerem, o que vestirem, vivem isolados em lodaçais humanos. A maior parte dos que se alimentam da carne animal , acham que estão fazendo a melhor refeição , pois ela é a mais cara. Sentimento com o animal ? Nenhum . Às vezes não tem com o próprio filho. O trabalho de conscientização sobre a causa animal é importantíssimo e como diz o ditado: "água mole em pedra dura, tanto bate até que fura." Tenho esperança !