
O motivo pelo qual pode-se afirmar que não há causa mais urgente do que a vegana é que não há nenhuma outra opressão em que haja maior envolvimento de humanos do que a opressão contra os animais não humanos.
Isso não é sobre desmerecer outras causas, mas compreender que na história humana a opressão contra os animais não humanos sempre se destacou por sua enormidade – e mesmo hoje continua crescendo, com a grande maioria dos humanos participando diariamente dessa opressão. Afinal, basta considerarmos o consumo que envolve a exploração e morte de animais.
Globalmente, segundo estimativa da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), mais de 80 bilhões de animais são mortos por ano para fins de consumo – e isso considerando somente animais terrestres. Qual opressão já se aproximou de gerar tanto impacto nocivo em tantas vidas? Nenhuma.
Logo, não há equívoco nenhum em reconhecer a causa vegana como a mais urgente – porque antagoniza a maior opressão contra indivíduos do mundo, que são arbitrariamente privados de interesses, de serem reconhecidos como fins em si mesmos e não em interesses humanos.
A opressão contra os animais não humanos é a que mais envolve humanos que têm diferentes crenças e valores – dos mais reacionários aos mais progressistas. Apesar dessas diferenças, eles participam da continuidade do irrefletido mal contra tantos animais. Essa pluralidade opressiva tão extensa não é encontrada em nenhum outro tipo de opressão.
Esse “mal normalizado em comum” coloca o especismo como a opressão mais violenta e mais bem-sucedida da história da humanidade. Mesmo a maioria dos humanos que se posicionam contra outros tipos de opressão ainda estão imersos nessa normalização, principalmente por meio de hábitos de consumo (carnes, laticínios, ovos, etc) – que é o meio pelo qual mais pessoas participam diariamente dessa opressão.
Poucos nesse contexto reconhecem o que é feito com os animais não humanos como opressão. Afinal, se reconhecessem, como poderiam argumentar que é coerente se opor a uma opressão, mas financiar outra? Logo, a continuidade dessa inconsideração depende também de negar ou ignorar como opressão o que é feito contra tantos animais.
Um exemplo válido para refletir sobre isso é trazido por Carol J. Adams no livro “A Política Sexual da Carne”, quando ela aponta que enquanto as mulheres podem se sentir como pedaços de carne e ser tratadas como pedaços de carne – emocionalmente retalhadas e fisicamente espancadas – os animais são de fato transformados em pedaços de carne. “Na teoria feminista radical, o uso dessas metáforas se alterna entre uma atividade positiva figurativa e uma atividade negativa de oclusão, negação e omissão, em que o destino literal do animal é suprimido.”
O que evidencia também o quanto o especismo se destaca em enormidade em relação a outras opressões é que nenhum outro tipo de opressão conta com tantos humanos oprimidos participando da opressão contra tantos outros indivíduos. Isso expõe a visceralidade da invisibilidade dos animais não humanos afetados pela opressão humana. Ou seja, sua opressão também não é vista ou até mesmo é negada como opressão por quem vive algum tipo de opressão.
Podemos realmente defender que a redução de animais a fins na alimentação não é um tipo de opressão? Se suas vidas não são determinadas por seus próprios interesses, mas por interesses de produção-consumo – algo que precede a própria vida, já que “o volume do que será produzido”, por exemplo, já resulta de processos de intervenção humana na biologia animal.
Animais não estão sendo abatidos cada vez mais jovens por acaso. Isso é resultado de intervenção humana na biologia do animal para ampliar em um intervalo de poucos anos “o potencial individual de geração de volume de carne”. Podemos pensar também em vacas que produzem cada vez mais leite – algo que não é inerente a elas e sim imposto a elas. O próprio processo de reprodução do qual depende a geração de leite é uma imposição humana (gerar vidas, o que ocorre pelo controle da sexualidade do animal, para entrar em estado de lactação).
Podemos também comparar uma galinha silvestre que bota pouco mais de uma dúzia de ovos por ano com as galinhas exploradas comercialmente que ultrapassam 300 ovos/ano. Esses exemplos refletem como a opressão sobre a condição animal precede o próprio animal como vida individual. Há muitos outros exemplos em diferentes atividades humanas que, embora arbitrárias, são normalizadas pelo especismo.
Enquanto podemos dizer que o especismo como preconceito ainda perpetua males com o aval e participação da maior parte dos humanos, a mesma conclusão não é possível sobre outras opressões. O especismo como sistema de opressão tem a maior amplitude de violência institucionalizada do mundo.
Afinal, matar animais é legal, incentivado e invisibilizado de forma muito mais profunda do que a combinação de todas as outras formas de opressão. Matadouros, por exemplo, são espaços de matança institucionalizada – não precisam ficar escondidos como um campo de trabalho análogo ao escravo e porque humanos normalmente não enxergam animais explorados nas relações de consumo (mesmo sabendo que são mortos) como vítimas.
Mesmo entre movimentos progressistas, o combate ao especismo ainda tem baixíssima prioridade social. Muitos, mesmo quando reconhecem alguma relevância nessa luta, a veem como “questão secundária”. Notório também é que muitas pessoas lutam ou dizem lutar contra opressões das quais não participam e, ao mesmo tempo, ignoram a opressão animal que financiam diariamente por meio da alimentação e de outros tipos de consumo. Isso, claro, mostra que o especismo é a opressão mais normalizada – e portanto a mais negligenciada até por quem se vê como justiceiro social.
A causa animal defendida pelo veganismo não pode ser deixada em segundo plano. Fazer isso é contribuir com a perpetuação do especismo. Dizer que “há lutas mais relevantes do que essa” é ignorar uma realidade opressiva que a maioria dos humanos apoia sem culpa. Por isso há grande urgência também de que outras causas não ignorem o que é apontado pelo veganismo.
Há um equívoco quando pessoas comparam causas como se a vegana fosse a menos importante. Contra tal pensamento, reforço que a maioria das pessoas não engrossa a opressão contra outros humanos, mas faz isso em relação a outros animais quando acham, por exemplo, que está tudo bem em se alimentar de animais. Portanto o especismo ainda é a única opressão quase universal, já que a grande maioria da população global não vê problema no consumo de produtos de origem animal.
Observações
A estimativa de mais de 80 bilhões de animais terrestres mortos anualmente (excluindo aquáticos) é avassaladora. Se incluirmos peixes, o número salta para trilhões. Nenhuma outra opressão sistêmica envolve um extermínio tão massivo e contínuo de indivíduos sencientes.
Diferente de genocídios humanos (que são reconhecidos como crimes), a exploração animal é celebrada como “necessidade” ou “cultura”.
Se quase todo mundo participa do especismo, diferentemente de outras opressões, faz sentido direcionar energia para onde há mais resistência consciente.
Mesmo animais com quem se estabelece uma relação de exploração que depende de mantê-los vivos serão mortos quando não for mais considerado viável – seja economicamente ou mesmo somente para consumo – mantê-los vivos. Isso faz parte do processo de normalização resultante do especismo, que naturaliza o “fim dos animais” considerando uma ideia de “custo-benefício humano”.
Veganismo não é “mais uma causa”: É a única que desafia uma violência na qual a grande maioria está envolvida sem questionar. Logo, é também o maior desafio ético do nosso tempo – porque o especismo é a opressão que menos pessoas enxergam como opressão. Por ser a mais normalizada e mais negligenciada é a que hoje mais exige um despertar de consciência massivo.
O especismo como exploração econômica em suas mais variadas formas é protegido por leis e recebe subsídios baseados nos impostos que pagamos – e isso ocorre mesmo quando somos contra o especismo. Portanto a violência contra animais não é apenas tolerada, mas economicamente e institucionalmente incentivada. Comparativamente, outras opressões – mesmo quando estruturalmente enraizadas – enfrentam algum grau mais significativo de contestação jurídica.
Objetificação radical: Animais são reduzidos a “recursos” desde seu nascimento. Suas vidas são pré-determinadas por interesses humanos, um nível de controle que nem mesmo as opressões humanas mais extremas alcançam.
Hipocrisia estrutural: Como apontado, é comum que indivíduos se oponham a uma opressão enquanto financiam outra (exploração animal). Essa dissonância é sustentada pela dessensibilização cultural em relação aos animais não humanos.
Fins em si mesmos: Animais são tratados como meios para fins humanos, nunca como seres com interesses próprios. Essa negação de subjetividade é mais radical do que em outras opressões.
Justificativas frágeis: Argumentos como “é natural” ou “sempre foi assim” são usados para defender o consumo do que é de origem animal, mas seriam imediatamente rejeitados se aplicados a outras opressões.
Privilégio humano: Não ver sentido em tratar a oposição à exploração animal como importante reflete o antropocentrismo até mesmo dentro de movimentos antiopressão.
Se um movimento que diz lutar por “justiça” ignora a exploração animal, e ainda a apoia por meio do consumo, será que ele está realmente lutando por justiça – ou só por justiça seletiva?
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2 respostas
Mais um texto seminal, David!
Muito obrigado, Philipe! Agradeço também por você estar frequentemente acompanhando e comentando.