Se um ser humano é pendurado de ponta-cabeça contra sua vontade, o que concluímos? Seu corpo invertido, sua resistência em estar ali, suas imprecações ou súplicas. Há diversidade de reações que podem ser percebidas em uma situação como essa – o medo do que virá, o temor de sentir dor, de ser morto, de não livrar-se daquela situação e espaço.
Então resta ao corpo balançar ou não balançar, se há um meio de contê-lo. Se vemos um animal não humano em situação análoga, porém institucionalizada, não imaginamos como seria se fosse um humano em seu lugar.
A desvantagem não humana em relação à humana está também na normalização da ação, na banalização da reação; porque mesmo manifestando com o corpo um interesse em não estar ali, não dirão que ele não deveria estar ali, porque se dissessem teriam que agir para impedir que estivesse ali.
A recusa não humana é entendida como parte do processo, e que logo tudo estará acabado, “que será rápido”, como se a ideia de rapidez invalidasse sua recusa. O “rápido” é “justificável”. Podemos dizer que, pela crença de que é “rápida”, uma ação nociva contra alguém deve ser cometida, incentivada, financiada?
O que importa é a velocidade ou a implicação da ação para quem dela é vítima? Quem gostaria de ser alvo de algo ruim, que não o beneficia, “porque o processo é rápido”? Um mal é aceitável porque não é lento, porque não é demorado?
Ademais, que afirmação é essa sobre o tempo, se a percepção do tempo constituída por essa percepção é humana, não do animal que dela é vítima? Faz sentido dizer que a velocidade que reconheço é a velocidade reconhecida pela vítima?
Que o animal não somente perceberá como sentirá a “rapidez”? Nenhuma afirmação posso fazer sobre a experiência não humana em relação ao que chamo de “tempo de ação contra seu corpo”.
Se faço isso, apenas reproduzo minha percepção, e não posso atribuí-la a esse animal. Além de não ser dele, não é sobre ele, mas sobre o meu olhar em relação a ele. E se não faço oposição à sua subjugação a partir de minhas ações, favoreço essa imposição em que a “rapidez” nunca foi sobre o animal, e sim sobre o interesse humano.
Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…
No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…
No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…
Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…
Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…
Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…