Sobre o interesse humano de pendurar animais e matá-los

Foto: Aitor Garmendia

Se um ser humano é pendurado de ponta-cabeça contra sua vontade, o que concluímos? Seu corpo invertido, sua resistência em estar ali, suas imprecações ou súplicas. Há diversidade de reações que podem ser percebidas em uma situação como essa – o medo do que virá, o temor de sentir dor, de ser morto, de não livrar-se daquela situação e espaço.

Então resta ao corpo balançar ou não balançar, se há um meio de contê-lo. Se vemos um animal não humano em situação análoga, porém institucionalizada, não imaginamos como seria se fosse um humano em seu lugar.

A desvantagem não humana em relação à humana está também na normalização da ação, na banalização da reação; porque mesmo manifestando com o corpo um interesse em não estar ali, não dirão que ele não deveria estar ali, porque se dissessem teriam que agir para impedir que estivesse ali.

A recusa não humana é entendida como parte do processo, e que logo tudo estará acabado, “que será rápido”, como se a ideia de rapidez invalidasse sua recusa. O “rápido” é “justificável”. Podemos dizer que, pela crença de que é “rápida”, uma ação nociva contra alguém deve ser cometida, incentivada, financiada?

O que importa é a velocidade ou a implicação da ação para quem dela é vítima? Quem gostaria de ser alvo de algo ruim, que não o beneficia, “porque o processo é rápido”? Um mal é aceitável porque não é lento, porque não é demorado?

Ademais, que afirmação é essa sobre o tempo, se a percepção do tempo constituída por essa percepção é humana, não do animal que dela é vítima? Faz sentido dizer que a velocidade que reconheço é a velocidade reconhecida pela vítima?

Que o animal não somente perceberá como sentirá a “rapidez”? Nenhuma afirmação posso fazer sobre a experiência não humana em relação ao que chamo de “tempo de ação contra seu corpo”.

Se faço isso, apenas reproduzo minha percepção, e não posso atribuí-la a esse animal. Além de não ser dele, não é sobre ele, mas sobre o meu olhar em relação a ele. E se não faço oposição à sua subjugação a partir de minhas ações, favoreço essa imposição em que a “rapidez” nunca foi sobre o animal, e sim sobre o interesse humano.

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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