Quando um ser humano está na iminência de ser morto por algum ser de outra espécie, ele é tomado por desespero inenarrável. Tal desespero é consequência natural da impossibilidade em comunicar ao outro o que está sentindo.
Quero dizer, posso falar, gritar, verbalizar o que sinto, mas se o outro não compreender, isso será insignificante, em vão. Afinal, haverá conflito de comunicação. Então é natural que em situações como essa o sentimento de terror seja anômalo.
O outro, por não ser da mesma espécie, é visto como um arcano, um enigma apavorante que amplifica as nossas impossibilidades de sobrevivência. A morte então é axiomática, e todas as nossas emoções concorrem ao mesmo fim.
Acredito que este seja o sentimento de um animal quando é morto por mãos humanas, animais reduzidos a alimentos e outros produtos. Sem dúvida, a incapacidade de comunicar-se como nós torna tudo muito pior, abissal, atemorizante.
A certeza de que não poderá reclamar pela própria vida mimetizando a comunicação humana avulta a dor e a sensação de impotência. Creio que seja uma experiência visceral.
Por isso, o animal não humano diante da finitude sofre mais do que imaginamos, porque não apenas sabe que vai morrer enquanto quer viver, mas também por perceber que sua dor é banalizada, desconsiderada pela incapacidade de comunicar-se de forma humana, já que o código comunicativo é diferente.
“Sem grito, sem choro, sem bravia resistência, está tudo bem. Eles não sofrem muito”, diriam, julgando os outros animais sob a obtusa perspectiva humana.
Gosta do trabalho da Vegazeta? Colabore realizando uma doação de qualquer valor clicando no botão abaixo:
Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…
No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…
No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…
Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…
Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…
Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…
Visualizar comentários
Inaceitável que se permita ainda o desprezo à vida e integridade física de qualquer indivíduo. Quem desrespeita uns, desrespeita outros, o que parece bem lógico, de simples dedução. Enquanto houver abuso de alguns grupos, etnias, espécies, haverá abuso de qualquer grupo de indivíduos. A Sociologia, certamente, deve enxergar com muita clareza as origens e os reflexos desta violência banalizada pela Economia.