Categorias: Pequenas Narrativas

Quando testemunhei um homem pelando um porco

Foto: Aitor Garmendia/Tras Los Muros

Há algum tempo, enquanto eu visitava uma horta, um homem na propriedade rural vizinha usava um maçarico para pelar um porco sobre uma velha mesa atrás da casa, a céu aberto. Pelo jeito, parecia ter sido usada inúmeras vezes para a mesma finalidade.

Era um animal de poucos meses (quando não são?) e notei sua boca entreaberta, a ausência dos olhos reduzidos a dois buracos que, de onde eu estava, pareciam bem escurecidos.

Ainda assim, sua cabeça mirava uma direção, dando impressão que poderia observar a horta onde eu estava, que começava a poucos metros de onde ele estava, mesmo sendo um corpo sem vida, uma carcaça a ser despedaçada.

A maneira como o homem olhava para o porco era como se não estivessem naquele lugar ele e o porco, mas somente ele, que não via o porco, não reconhecia o porco, somente o corpo, disposto para um fim.

Recordei-me do que li uma vez sobre a passada de olhos que não visibiliza, porque não é pra ver, só pra percorrer, por um condicionamento que é também forma de amortecimento. Tentei imaginar que tipo de relação ele teve com o porco antes de matá-lo.

Se eu perguntasse, o que teria dito sobre o porco vivo, não sobre o corpo sobre a mesa? Algo específico sobre aquele animal? Como uma vontade, um hábito, um interesse? Por que faria isso? É sempre pouco tempo para receber um nome? Ou o recebeu apenas para matá-lo e entregá-lo a alguém?

Num momento, o homem ficou de costas para o porco, olhando onde eu estava e acenou, um aceno bem cordial. Sorriu e tomou um gole de alguma coisa, apoiando uma das mãos na quina da mesa, sem mudar de posição.

O homem que me reconhecia, sem me conhecer, não reconhecia o porco que conhecia, e que já não poderia ser porco. Dar as costas ao porco não é a comum realidade do porco? Não vê-lo, não percebê-lo, não pensá-lo como a forma viva que não pode prevalecer.

Naquele contexto, eu, doutro lado, existia, nesse exercício de reconhecimento de outro ser, e o porco do mesmo lado dele, inexistia – o paradoxo que envolve o que é vida só para o que é morte.

O homem continuou a pelar o porco, ainda inteiro, espalhando um cheiro estranho. Ele e o porco, como ele e o não porco, só um corpo.

Leia também “Um humano na pele de um porco“, “O homem que salvou o porco que ele deveria matar“, “Um porco escapa do abate e volta pelos outros” e “O mau cheiro vem do porco ou da exploração do porco?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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