Entramos numa aldeia, e vimos, com perdão seja dito, um porco engordado, branco rosado, que pegaram em uma casa para matá-lo. O porco gritava de um modo desesperado, os gritos pareciam humanos. No momento preciso em que passávamos por ali, começaram a degolá-lo.
Um homem cravou-lhe a faca na garganta. Os grunhidos do porco foram mais fortes e agudos; o animal escapou, mas o seu sangue escorria. Sou míope, e não vi todos os detalhes da cena: vi unicamente um corpo rosado como o de um homem e ouvi os grunhidos desesperados. O carroceiro observava tudo aquilo sem afastar a vista. Pegaram de volta o porco, o derrubaram e o submeteram.
Quando cessaram seus gritos, o carroceiro lançou um profundo suspiro:
— Como pode Deus permitir isso?
Tal exclamação demonstra o profundo asco que inspira ao homem a matança. Mas o exemplo, o costume da voracidade, a afirmação de que Deus admite tais coisas, fazem com que os homens percam por completo esse sentimento natural.
Liev Tolstói, “O Primeiro Passo”, página 20, publicado originalmente em 1892.
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