Tolstói: “O porco gritava de um modo desesperado”

Vi unicamente um corpo rosado como o de um homem e ouvi os grunhidos desesperados (Foto: Tolstoy Foundation)

Entramos numa aldeia, e vimos, com perdão seja dito, um porco engordado, branco rosado, que pegaram em uma casa para matá-lo. O porco gritava de um modo desesperado, os gritos pareciam humanos. No momento preciso em que passávamos por ali, começaram a degolá-lo.

Um homem cravou-lhe a faca na garganta. Os grunhidos do porco foram mais fortes e agudos; o animal escapou, mas o seu sangue escorria. Sou míope, e não vi todos os detalhes da cena: vi unicamente um corpo rosado como o de um homem e ouvi os grunhidos desesperados. O carroceiro observava tudo aquilo sem afastar a vista. Pegaram de volta o porco, o derrubaram e o submeteram.

Quando cessaram seus gritos, o carroceiro lançou um profundo suspiro:

— Como pode Deus permitir isso?

Tal exclamação demonstra o profundo asco que inspira ao homem a matança. Mas o exemplo, o costume da voracidade, a afirmação de que Deus admite tais coisas, fazem com que os homens percam por completo esse sentimento natural.

Liev Tolstói, “O Primeiro Passo”, página 20, publicado originalmente em 1892.

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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