Trabalhar em um matadouro pode tornar um homem mais suscetível à violência?

No filme finlandês “Crime e Castigo”, uma livre adaptação de Aki Kaurismäki do romance de Dostoiévski, o jovem Rahikainen (Markku Toikka), que trabalha em um matadouro decide matar um homem. Para ele, o homem não tem mais direito de viver do que os animais que ele despedaça.

Quando, após matá-lo, Rahikainen não retorna ao trabalho, seu amigo Nikander (Matti Pellonpää) diz que entende por que ele não apareceu mais no matadouro: “Você não suportou mais ver o sangue.” Para Nikander o contato frequente com o sangue, resultante da destruição de vidas, pode transformar um homem.

Então ele comenta que “está bem”. E o amigo replica: “Você se sente assim no começo e depois tudo desmorona.” Questionado sobre como sabe disso, Nikander explica que já leu sobre o impacto de se trabalhar em um matadouro.

Rahikainen deixa claro com um aceno que não voltará mais ao matadouro. É interessante a forma como Kaurismäki deixa as conclusões abertas no decorrer do filme, sobre as motivações e influências para que um interesse em matar fosse consumado.

É somente quando Rahikainen, que antes era um estudante de direito, está atuando em um matadouro que ele mata um homem. Ou seja, quando já está familiarizado com a experiência de estar diante de corpos vivos reduzidos violentamente a corpos mortos.

Uma pergunta que Kaurismäki não responde no filme é: “Teria Rahikainen matado tal homem se não tivesse trabalhado em um matadouro? Já havia motivação o suficiente nele para fazê-lo independentemente disso?” A interpretação cabe ao espectador. No entanto a primeira pergunta é uma questão que dialoga com a conclusão de Nikander, “de que mais tarde tudo desmorona”.

Mesmo que Rahikainen visse na sua ação uma inquestionável razão, Nikander, no diálogo entre os dois, é o ponto de consideração entre o matadouro e o assassinato de um humano, mesmo que ele sequer soubesse que o amigo havia matado um humano.

O “desmoronar” então pode ser percebido também como a realização de uma ação de comum reprovação moral facilitada pelo que é contínuo sobre ações que não costumam ser reprovadas moralmente, ainda que tanto a primeira quanto a segunda sejam sobre uma mesma consumação – assassinatos.

O filme está disponível no Mubi.

Leia também “O que leva alguém a trabalhar matando animais?”, “Trabalhar abatendo animais pode alterar a personalidade humana” e “Matadouros lideram rankings de acidentes de trabalho”.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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