Categorias: Pequenas Narrativas

Um animal ainda é um animal no açougue

Foto: Andrew Skowron

A mãe pediu que fosse ao açougue comprar frango assado. Pagou, pegou a senha e esperou a vez diante do assador rotativo. Seis espetos giravam sem parar, mas devagar. Ficou intrigada com a pele tostada e alaranjada.

Havia um corpo ali, sem cabeça. Não, não apenas um. Contou 30. Pareciam inchados, desproporcionais. Peitos enormes contrastando com coxas pequenas. “Os ossos das pernas devem ser pequenos também. Como sustentava o corpo?”

Nunca tinha prestado atenção em frango antes. Não costumava ir ao açougue e não conheceu de perto nenhum com vida – só uma ou outra galinha. “Deve ser ruim pra apoiar tanto peso.” Perguntou ao atendente se ele sabia por que aqueles frangos tinham algumas partes tão grandes e outras tão pequenas.

Ele só sorriu, não respondeu. Talvez tenha achado que fosse piada. Quem diria algo assim no açougue? O cheiro que saía do assador era prazeroso pra alguns e incômodo para outros, não por causa dos animais – ninguém via animais – mas porque era enjoativo e gorduroso.

“Por quanto tempo será que giram ali?” Alguns tinham estranhas marcas pela carcaça. “Será que só eu vejo isso?” Enquanto pensava, ouviu barulho. Um frango com a pele mais tostada começou a bater as asas que pareciam maiores do que o normal. As pancadas no vidro eram fortes, formando riscos, e os clientes ficaram enojados.

O atendente chamou o patrão pra conter as más reações. “Não é nada, pessoal. É só uma reação involuntária porque foi abatido faz pouco tempo”, explicou. Com o espeto atravessado pelo corpo, numa espécie de empalamento horizontal, o frango bateu mais algumas vezes contra o vidro até parar completamente.

A vitrine já não era tão atrativa. Algumas pessoas saíram da fila bastante incomodadas. Outras não desistiram de levar um frango, mas “não aquele que parecia vivo”. “É melhor comer e não pensar”, alguém comentou. Gostava de carne de frango, mas preferiu não levar nenhum para casa e inventar uma desculpa para a mãe. Com vida ou sem vida, era um animal sendo um animal.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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