Categorias: Pequenas Narrativas

Não olhou para o prato quando disse que “só Deus tem o direito de tirar a vida”

Enquanto o gato sofria, sem possibilidade de recuperação pelo rápido avanço da doença, e a veterinária disse que não havia mais nada a ser feito, a não ser interromper esse sofrimento por meio da eutanásia, reagiu com a afirmação de que “só Deus tem o direito de tirar a vida”.

Entendeu a explicação de que não restava qualidade de vida para o gato.

Mantê-lo vivo seria prolongar seu sofrimento, que não poderia mais ser amenizado por nenhum tratamento.

“Viver agora é só sofrer, e da pior forma possível”, ouviu.

Horas depois, aceitou que o animal fosse eutanasiado. Não testemunhou a vida desaparecer, restando somente um corpo que já não se movia.

À noite, pediu perdão e repetiu que “só Deus tem o direito de tirar a vida”.

No dia seguinte, almoçou boi e jantou frango. Não disse que “só Deus tem o direito de tirar a vida”.

Há um selecionar a vida que deve ser abstraída, se pela eutanásia, pelo não sofrimento, se no matadouro, pelo que é vontade e desejo.

Leia também “Trazemos animais ao mundo para sofrer”.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • É uma forte contradição, que por ser algo tão cultural poucos veterinários se questionam. Eles se alimentam dos seus pacientes. Bem creepy e triste.
    Eu já pensei em ser veterinária, mas desisti só de pensar na dificuldade que eu teria com vivissecção, com os meus colegas comendo seus pacientes.
    Eu não suportaria ver tanto sofrimento e não fazer nada.

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