Enquanto aguardava o fim do engarrafamento, viu Orbi observando um grande veículo ao lado. Transportava suínos para um matadouro. Confirmação? Nome do frigorífico destacado na lateral do caminhão.
O cachorro mantinha os olhos em direção a um porco, e o porco em direção ao cachorro. “O que será que Orbi pensa sobre o suíno? O que será que o suíno pensa sobre Orbi?”, perguntou-se. Havia conforto no carro. Orbi brincou, recebeu afagos e boa alimentação antes de saírem de casa.
“É o mínimo que posso fazer por ele”, costumava dizer a quem falava que Orbi era privilegiado. “É o que todos devemos fazer pelos animais”, complementava. O cachorro não latia para o porco.
Dali também não se percebia som vindo dos animais no caminhão, pelo menos do suíno que assistia Orbi.
Eram dois estranhos com vidas diferentes, destinos diferentes, encontrando-se pelo acaso num momento que revela as dissemelhanças das escolhas humanas. Orbi foi escolhido para ser cuidado e o porco do caminhão para ser fatiado.
O banco do carro era tão macio, e Orbi gostava de esfregar as orelhas nas laterais. Na carroceria do caminhão, o que era macio? Somente os corpos ainda quentes dos animais amontoados, em jejum, que não teriam uma vida como a de Orbi.
Com dois anos, Orbi era chamado de criança. E no caminhão, só animais perto de completar seis meses de idade. Quantos diriam que eram crianças? A corpulência engana, mas a sentença vem da indiferença.
Concluiu que Orbi estava surpreso por ver um porco pela primeira vez. “Quem garante que é só isso?” Não achou que fosse adequado tentar interpretar a consciência não humana, mas pensou na obviedade instigada pela situação.
“Que cão gostaria de estar no lugar de um porco e que porco não gostaria de não ser abatido?” Horas depois, Orbi estava no conforto de casa, e o porco que o observou já não observou mais nada.
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