Animais já estavam no caminhão e não retornariam àquela fazenda. Lembro quando ouvi “que foram bem tratados o tempo todo.” Pedi licença para fazer observação.
“Ainda que eu concorde, o bom tratamento, se existiu, acabou agora. Afinal, não é para o matadouro que vão essas criaturas ‘bem tratadas’ e a partir da sua intenção?”
Quase fui expulso dali. Outro me disse que os tratou como família. Mirei-lhe os olhos sem surpresa e não mantive silêncio. “Não acho que o senhor enviaria alguém de sua família para o abate. Como dizer que são como se fossem família?” Virou as costas e não respondeu.
Mesmo um sujeito que encontrei queimando com espécie de maçarico os pelos dum grande porco já abatido no fundo de sua chácara se orgulhava da maneira como “cuidou do suíno em vida”.
Sorria enquanto falava da diversidade de farelos e farinha de aves com que alimentou o animal e como se hidratava e chafurdava numa lama de boa qualidade até o dia anterior.
“Não tem ideia de como viveu bem.” “E agora o senhor faz com que o infeliz pague a conta com a própria carne? Peço desculpa se sou inconveniente, mas quem alimenta um animal para fazê-lo pagar mais tarde com a própria vida, consideração ou estima honesta não tem por tal animal.” Apagou a chama do maçarico, me mostrou a saída e não fez comentário.
Recordo ainda de uma vaca leiteira servida num churrasco. O dono do sítio disse que “era mimosa de baixa produtividade” e que as despesas com alimentação não compensavam mantê-la viva por mais tempo.
“Mas enquanto viveu foi feliz conosco, e como foi. Fizemos todas as suas vontades…” “Então o senhor decidiu que era hora de pôr fim àquela felicidade? Imagino a felicidade da pobre mimosa durante a degola. Quem não gostaria de ser degolado?”
Saiu de perto, simulando incompreensão. Depois notei que uma convidada se assustou ao saber que estavam comendo uma vaca leiteira. “Pois é, e não comem apenas aqui, e não morre somente aqui, porque o que não falta na produção de leite é sangue…”, ponderei, já sem dizer.
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