Categorias: Pequenas Narrativas

Um novilho fugiu no dia de ser morto

Um novilho fugiu no dia de ser morto. Foi capturado menos de uma hora depois. Amarraram sua cabeça com uma corda surrada, que imobilizava também a boca, e o mandaram para o matadouro.

Sem chance de trocar de posição ou de virar a cabeça, ele olhava da carroceria o movimento nas ruas. Notava sem ser notado.

Tentou livrar-se da corda. Um nó bem apertado do tipo que raspa o pelo queimando e os fiapos cutucam as narinas, entrando e saindo conforme o movimento do caminhão.

Era como se a corda fosse feita para uma reação, mas uma reação que não deixaria de ser contida. Tentou recuar. Tudo que poderia fazer era tentar.

Alguém disse que o nó também é chamado de “cala a boca”, que é pra saber que não poderia reclamar mesmo se quisesse.

O novilho continuava olhando lá fora. Veículos, pessoas, sons, muita movimentação.

Ninguém via ou reconhecia que havia uma luta na carroceria, uma inquietude, uma resistência controlada por um interesse em separar um animal de seu corpo.

Nenhum olhar externo encontrou o olhar interno. Personagens e coisas mudavam. Logo tudo desapareceria, para ele, e desapareceu.

 

Leia também “Para onde vai o novilho que foge do matadouro?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • Não importa quantos séculos se passarem, ou o que me digam, eu nunca vou achar esse tipo de sofrimento normal :/
    É como estar num filme de terror eterno.

    Os mais velhos dizem "o mundo não é um mar de rosas", eles aceitaram o próprio sofrimento, como também causam sofrimento agora.
    Nunca é tarde para parar o ciclo de sofrimento.
    Não vamos desanimar, vamos despertar o mundo.

  • Também acho um terror ! Deus abra a consciência de todos para que todos os olhos vejam, os ouvidos ouçam e o coração sinta compaixão!🙏🏻🙏🏻🙏🏻😥😥😥😥

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