Um porco confinado observa a luz que vem de fora. Seus olhos miram a saída. Nada do que acontece transforma seu olhar, demove sua atenção. Seu corpo está dentro, mas será que ele transita lá fora?
Uma orelha dobra-se numa porção enferrujada da grade. E se pudesse dobrar a morte? O olhar não muda. Tudo ali é sobre ele, mas o que é sobre sua vontade? Dá pra contar os passos até a saída. Não é longe. Mas?
O porco não é sobre o momento, é sobre o passamento. Continua olhando. Será que espera o dia de sair? E sai. Sente o sol tocando o corpo e sobe uma rampa. Da carroceria, vê vidas que não conhecia.
Fica agitado com sons, cheiros e tantos movimentos desconhecidos – veículos, pessoas. Mantém o olhar lá fora. Não é percebido. É como se ainda estivesse no mundo de grades.
A carroceria também tem suas grades. Coloca o focinho pra fora, onde a brisa o massageia. É um afago casual que não conhecia. Treme e geme, sem sofrer.
Quer ficar ali. Quando o caminhão para, resiste em sair. Espera a brisa que não chega. Tentam tirá-lo, ele persiste. Leva choque, não sai, leva choque e cai.
É arrastado para fora. Na rampa, empaca. Outro choque. Cai de novo e morre. De repente, chega a brisa que não sente.
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