Categorias: Pequenas Narrativas

Uma caçada é uma tragédia

Foto: Pixabay

Quando o sol despontava, pai e filho saíram para caçar. O primeiro deliberou que não era necessário levar a cadela para o rastreamento de javalis, porque a menos de cinquenta metros da casa do sítio reconheceu “pegadas inconfundíveis” no solo macio.

“Que querem aqui esses infelizes? Se vêm até nós, agora iremos até eles. É hora dum acerto de contas”, disse o pai. O filho só ouviu, sem opinar ou menear a cabeça.

Olhando para a umidade na terra e sentindo frescor de uma chuva findada na noite passada, o pai interpretou a situação como sinal de Deus, bastando segui-lo para colocar fim ao que não deveria ter princípio.

Tinha muita raiva dos javalis, fazendo da caça exercício carregado de paroxismo, ainda que os animais tivessem chegado ali por causa de um negócio que não deu certo, e logo foram abandonados na mata por seus rufiões.

“Sim, um rastreamento à nossa moda. Podemos retornar para casa antes do almoço. Será o fim duma criatura inimiga e matreira, ou se for mais, que assim seja, desde que possamos cumprir nosso papel com a nossa terra e com a vontade de Deus, que também é a nossa”, acrescentou o pai alisando o cano da espingarda.

Desejando que o rapaz tivesse mais iniciativa durante as caçadas, o orientou a seguir pegadas a leste enquanto o pai ia para oeste. O velho ficou feliz de ver o filho desaparecer mais adiante, sem hesitar, sem questionar.

Enquanto atravessava um pedaço de mata, o rapaz escorou num tronco rodeado por um tapete de folhas e testemunhou um grupo de anus que protegia um ninho. “Vários animais para um ninho”, comentou sozinho e sorriu, despreocupado com pegadas.

Três ou quatro horas depois, retornaram para casa. O pai carregava um animal sem vida, que sangrava, com olhar vítreo, corpo amolecido e boca entreaberta. Nenhum dos dois comemorou – o filho porque morreu e o pai porque matou.

O rapaz estava deitado observando anus e, conforme seu corpo reagia em animação pelo que via, seu pai, que mudou de rota, o atingiu com um tiro na cabeça, imaginando que fosse javali remexendo a vegetação.

O disparo levou uma vida e expulsou os anus, que desapareceram abandonando um ninho vazio. Não era o único.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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