Uma criança pode ser cruel com os animais sem que racionalize a crueldade. Uma forma de favorecer isso é por meio de práticas que a partir de sua construção social e da institucionalização sejam identificadas como “normais”.
A normalização da crueldade permite que uma criança não reconheça a crueldade como crueldade, porque absorta em um contexto de não contestação, nem todas compreenderão que submeter animais, validar a diversa violência contra não humanos, é reprovável.
Quando vejo uma criança reproduzindo práticas de supremacismo humano, dominação não humana, racionalizo que essa construção de sua concepção e ser social que não vê problema em submeter animais surgiu de algum lugar. E sendo práticas que são reforçadas por sua família e outras pessoas de seu círculo social, os sinais de que “está tudo bem em tomar parte nisso” são costumeiros.
Causar mal aos animais é sempre reprovável, porém é imponderado subestimar o fator social de estandardização e recrudescimento dessas práticas. Se reconhecemos a violência imanente à subjugação animal, logo a reprovamos, mas e quando a violência é uma ausência para quem toma parte dela? Isso ocorre porque essa constatação, que parece-nos tão óbvia, depende se estamos olhando para a vítima ou para nós mesmos.
Uma criança pode crescer com a percepção de que um animal é uma criatura desanimalizada, em que é reconhecido não o animal como é, e sim o animal como um recorte reificado, coisificado, do interesse humano, de algo (alguém) que deve existir em nosso benefício – uma representação esvaziada em relação ao que não é sobre mim; o que facilita percebê-lo com estranheza e distanciamento que reproduz a crença de que participar de sua violência não é uma violência.
Quando se é contra a exploração animal, há uma percepção bem definida da questão, mas quando não se é, estar diante de um animal pode ser como não estar, porque não o vê (por recusa continuada por condicionamento) e assim o submete ou anui o submeter; o que é resultado de um distanciamento permissivo, em que o animal é o que digo ser (ou disseram-me ser), não o que (quem) é, ratificando uma assimilação supremacista e situacionista da realidade.
Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…
No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…
No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…
Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…
Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…
Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…