Categorias: Contos e Crônicas

Uma lição para não comer animais

Ilustração: Luke Chueh

No restaurante, olhou em volta e percebeu que sua mesa era a única livre de qualquer alimento de origem animal. Sentiu-se deslocado e desapontado.

Pensou em pedir que embalassem sua refeição para comer em casa, onde não precisaria testemunhar o que definiu como “coletivo da desconexão”.

“Mas já estou aqui e acho que seria bobo fazer isso.” De repente, uma mulher aproximou-se, pediu licença e disse que achou bonito seu prato, a combinação de alimentos, e perguntou sobre o que estava comendo.

Ele explicou, ela agradeceu e saiu. Pouco a pouco, vieram um rapaz, uma idosa e uma adolescente. Antes que terminasse de comer entre pausas, já não sabia dizer quantas pessoas atendeu.

Voltou ao mesmo restaurante por semanas, meses, comendo devagar e levando à mesa pratos que atraíam atenção pela diferença, por não ter nada proveniente de animais – e que eram também exercício de criatividade.

Sua mesa destoava, era singular, e fazia todas as outras parecerem como se fossem uma só, porque, imersas em seus hábitos, as pessoas comiam o que foram criadas para comer e apreciar, sem muito ponderar.

Achavam que o prazer e a vontade subsistiam nas limitações de suas escolhas, de viciados paladares. “Animais, animais, animais.” Era o que via e dizia pra si mesmo no silêncio de uma percepção cotidiana e repetitiva. Mas era fácil entender por que sua mesa atraía olhares.

Se andasse por todo o restaurante, qualquer um perceberia que a diferença pode levar tanto à estranheza quanto ao reconhecimento de beleza. E entendia que a beleza é condutora de curiosidade, de um despertar de fruição, prazer.

E ali nada inspirava mais beleza e suas associações e motivações do que sua capacidade e interesse em mostrar que os frutos da terra levam grande vantagem sobre os frutos da violência. “Por que não fazer diferente?”

Sem precisar falar muito, apenas estar ali, à sua maneira, atraindo e moldando curiosidades, gerou mudança no restaurante. Um dia, olhou à sua volta e já não viu mais partes de animais na maioria das mesas. “Não cheguei com intenção, mas ela chegou.”

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David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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