Um criador de porcos usava um cachorro para controlar os animais que deixava soltos por uma hora no fim da tarde. Foi uma decisão tomada não por iniciativa própria, mas por queixa de um filho, que dizia ser melhor para os animais e “para a produção” se tivessem algum tempo diário no campo.
Dias depois, alguns porcos começaram a se recusar a voltar para o barracão. Então o homem usava o cachorro para cercá-los e obrigá-los a retornar. Treinado para superá-los, o animal cumpria esse objetivo.
Um mês depois, o homem percebeu que em vez de os porcos ficarem mais calmos pelo tempo passado lá fora, que imaginava ser eficaz para a “produção”, como o filho recomendou, a experiência aumentou a resistência deles em retornar ao barracão.
Já não queriam mais estar no barracão. Parecia uma mensagem de que não desejavam mais viver no barracão. Então decidiu interromper a saída de uma hora dos porcos por algumas semanas.
O filho advertiu sobre a importância do “bem-estar deles”, e que não era correto mantê-los presos o tempo todo, não importando se tinham “comportamento teimoso”, “porque isso seria crueldade”.
O homem acabou cedendo. Um dia, uma hora depois, estranhando a ausência do cachorro na hora de usá-lo no controle dos suínos, o criador de porcos gritou: “Jerô! Jerô! Jerô! Jerô!”, chamando o cão. Exaltado pelo não retorno, começou a perder a voz de tanto berrar.
Rodeou o barracão e encontrou o cachorro deitado de frente para um leitão, um olhando para o outro e um cheirando o outro, numa experiência de reconhecimento. Jerô não queria mais perseguir porcos. Jerô conhecia os porcos.
O homem não disse nada. Ficou calado olhando para o leitão. Os olhos iam de um para o outro e, sem esperar, sentiu a vontade de mandá-lo para dentro do barracão ir embora.
Depois percebeu que o filho queria que ele conhecesse os animais que enviava para matar, assim como Jerô conheceu.
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