Por que descartamos vidas? Pensou no apetite, no dinheiro e na multiplicidade da ação que incentiva omissão. Só omissão? Não.
Percorreu o centro com uma caixa de ovo numa mão e um pintinho numa pequena almofada. Apontaram e disseram que era ridículo transportar animal naquele conforto.
Isso aí é só pintinho. Quebrou ovo numa calçada movimentada e jogou no chão. Pintinho escorreu da almofada. Em forma líquida, juntou-se à clara e à gema, virando porção densa de sangue que tingia o meio-fio da esquina.
Como o senhor fez essa mágica? Não fiz nada. Isso não vem de mim, vem da vontade da humanidade. Ah! Conta aí, né? Truque então? Sim, truque que não é meu. Não começa nem termina comigo.
Acharam que era louco. Por que não passava chapéu? Não queria moeda, dinheiro, nada disso. Noutra esquina, outro pintinho deitou da almofada, caindo de costas. Antes que tocasse o chão, alguém estendeu a mão e o segurou.
Ovo desapareceu, com casca e tudo. Caixa também. Sorriu. Pensou num mundo diferente, com mais mãos fora do bolso e de cima da mesa apoiada sobre os animais.
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