O quinto episódio da terceira temporada da série “Black Mirror”, “Engenharia Reversa”, pode ser usado para discutir o especismo e a matança de animais baseada na conveniência humana.
O episódio apresenta militares que recebem implantes para facilitar a matança de outros humanos. Esses humanos enquanto alvos têm para os militares uma forma não humana e, por não serem reconhecidos como humanos, são mortos sem hesitação.
A linguagem é transformada em sons incompreensíveis, que mescla reações animais e é estabelecida tanto como barreira como facilitadora de violência e aniquilação. As expressões e as fisionomias também são brutalizadas, para fortalecer distanciamento e inconsideração.
Há inúmeros momentos em que há referências pejorativas a esses indivíduos como animais, e assumindo a ideia de animais como separação do humano, em que o animal é só o outro e, portanto, problema algum há em matá-lo por uma crença que ao mesmo tempo que estabelece uma inferiorização que permite destruí-lo também o coloca como ameaça, por uma construção artificiosa do “mal intencional”.
O animal por ser “o outro”, e sobre quem por conveniência se determina uma diferença inconciliável, sob o engodo de ser uma ameaça, é o que mais facilmente permite exterminá-lo; e a construção para legitimar sua matança é a de “praga”.
Isso pode ser comparado com inúmeras situações em que humanos usaram do superlativo para justificar a matança de outros animais. Quando um dos soldados descobre que suas vítimas eram humanas, ele resiste a tomar parte nessas ações.
Ou seja, o que transforma a percepção do soldado não é o reconhecimento de que o outro, mesmo que não fosse humano, não deveria morrer, porque suas ações eram baseadas na luta pela sobrevivência, não na provocação de um mal, mas de que o outro não deve morrer porque “há uma dissimulação sobre sua não humanidade”. O direito de não ser morto surge pelo que sobre o outro é condição humana.
Embora haja uma crítica social sobre os implantes usados para favorecer a matança de “humanos indesejados”, pelo lugar social que ocupam e por características que são utilizadas para estigmatizá-los como inferiores, a empatia e alteridade só são estabelecidas na relação humana-humana, e reforçando o “não lugar não humano”.
A série está disponível na Netflix.
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