Categorias: Opinião

Devemos ver a morte de animais como prejuízo?

Em uma matéria sobre a morte por descarga elétrica de bovinos em uma fazenda leiteira no Rio Grande do Sul é destacado várias vezes o “grande prejuízo para o produtor rural”.

É ressaltado que “estima-se prejuízo de R$ 200 mil” e logo fala-se em “grandes perdas”. Quando pensamos em seres humanos, “grande perda” é algo comumente associado à morte de alguém, ao “seu valor enquanto indivíduo”.

Já em relação a animais não humanos usados para fins de consumo, “grande perda” tem caráter estrito de “perda de dinheiro”, já que o animal não é reconhecido como indivíduo, mas como meio de obtenção de lucro.

A tragédia não é analisada como algo que abateu-se sobre os animais, mas sobre o pecuarista, porque são “seus semoventes, seus geradores de produtos” até quando for conveniente mantê-los vivos.

A tragédia não é sobre o que são, mas sobre funcionalidade, o que deixam de proporcionar – um produto a ser vendido. A percepção não muda em relação ao significado contextual da palavra lamento.

Por isso, não há reconhecimento da gravidade da morte em relação à experiência de mortandade por choque, mesmo que seja resultado de negligência de quem os mantinha cativo em espaço inseguro.

O choque então é extremamente incômodo porque inviabilizou a exploração, a tornou impraticável antes do período predeterminado para aqueles animais.

A imagem de corpos caídos e cabeças atravessadas e sem vida posicionadas sobre uma base concretada evoca uma fragilidade que me leva a pensar mais sobre o nosso sistema alimentar do que em uma ideia de eventualidade.

As ideias do “acaso” e do “acidental”, quando influenciadas pelo “discurso oficial” sobre a exploração animal, reduzem nossa percepção à rasura que não reconhece os problemas da estrutura, porque é cômodo pensar que a vida dos “animais é boa” quando “não há tragédias”.

Mas que vida não humana não termina em tragédia se o seu fim premeditado envolve degola? E sobre consumir alimentos de origem animal e lamentar esse fato, que tal considerar também que choque é usual no “atordoamento” de porcos e frangos em matadouros?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

3 semanas ago

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal?

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal? Há…

1 mês ago

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos?

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos? Em 2024, o Brasil bateu…

1 mês ago

O consumo humano transforma animais em prisioneiros de seus próprios corpos

A prisão é o corpo: além do matadouro O consumo humano transforma animais em prisioneiros…

2 meses ago

Animais, pela ética do amor ou do cuidado?

Amor ou justiça: por que a ética do cuidado é mais eficaz A premissa de…

2 meses ago

Por que não é uma boa ideia usar o termo “feito de plantas”

Pode parecer coerente usar o termo “feito de plantas” em relação a alimentos ou pratos…

2 meses ago