Categorias: Contos e Crônicas

Vida de vaca termina no matadouro

Ilustração: Tommy Kane

Na saída de uma lanchonete de beira de estrada, viu a chegada de um caminhão boiadeiro. Esperou o motorista entrar e aproximou-se da carroceria. Percebeu que alguns animais estavam molhados, e a água da chuva escorria entre os olhos como se formasse caminho de lágrimas.

“Faz logo pensar em choro. Bom, mas ainda que não chorem como a gente não significa que não chorem. Conhecendo a região e este trajeto, só posso concluir que estão indo para o matadouro. Que tristeza…”, disse olhando para as vacas com as tetas murchas.

Notou três deitadas no assoalho molhado. Tinham grandes manchas de sujeira por diversas partes do corpo. “É uma exaustão que só uma vaca leiteira pode conhecer.” Viu bicos feridos que destacavam-se à pouca luz – e reconheceu como sinalização de dor.

Uma delas tentava lamber a região, mas não tinha força nem disposição. Estranhou a ausência de barulho, de gemido e mugido.

“Seria uma profunda interiorização do próprio sofrimento que chega a um ponto tão visceral de limitação do próprio ser? Talvez seja esgotamento, ausência de energia, que levam também à desarticulação.”

Observou outra vaca, tentando equilibrar-se sobre o assoalho, com os pés tremelicando. Era a única que mirava seus olhos, mas chegou um momento em que cansou e deitou. Perguntou-se quantos quilos de dor seriam encontrados ali se a dor pudesse ser pesada.

“E se o peso da dor viesse anunciado nas embalagens de produtos com leite e carne de vaca? Mas o peso da dor não soma-se ao que é vendido no mercado, carcaça ou não. É subtraído, assim como tudo que um dia foi parte de suas vidas.”

Algumas vacas aparentavam ser mais jovens do que outras, mas concluiu que nenhuma tinha mais de cinco anos. Lembrou de seu filho de seis anos. “Vocês nasceram depois dele e já estão sendo enviadas para morrer. Como hábitos podem ser tão eversivos? Encurtamos o tempo todo vidas que não são nossas…”

Quando o caminhão partiu, sabia que no dia seguinte já não estariam no mundo, porque eram mais um número, conduzido ao fim, pela vontade humana.

Gosta do trabalho da Vegazeta? Colabore realizando uma doação de qualquer valor clicando no botão abaixo: 

David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

Posts Recentes

Quanto vale a vida de um animal?

Viu um bezerro caído na estrada. “Foi atropelado?” Parou o carro e desceu. O animal…

2 semanas ago

Uma lâmina serve quanta violência no matadouro?

Ver um animal vivo e pouco depois observá-lo morto causou-lhe mal-estar. Estava ali para testemunhar…

3 semanas ago

Como os porcos vivem pouco

Não faz aniversário. Não passa de meio ano de vida. O que pode ser comemorado…

3 semanas ago

SP: Santuário Filhos de Shanti precisa de doações com urgência

Com sede em Pindamonhangaba (SP), o Santuário de Animais Filhos de Shanti está pedindo ajuda para arrecadar…

3 semanas ago

Mercado de alimentos veganos crescerá 42% até 2025

Um relatório da Business Research Company estima que o mercado de alimentos veganos crescerá 42%…

3 semanas ago

Novilha é enviada para santuário após escapar de matadouro em NY

Uma novilha que escapou este mês de um matadouro da cidade de Nova York foi…

3 semanas ago