Vidas não valem nada, concluí quando saí do matadouro. O magarefe posicionou a pistola contra a cabeça de um boi dócil e disparou – um tiro absterso e silente.
O dardo penetrou o crânio do animal e o fez deitar no chão. Barulho intenso. Tive a impressão de que algo estava explodindo. E não estava? O mundo de um animal que naquela tarde não imaginava que não veria noite ou novo dia.
Não chorava feito criança, embora corpulento e desgracioso tremia como um recém-nascido – (in)voluntariamente, batendo de um lado para o outro dentro da caixa. Morto? Sim ou não, depende de quem vê.
Magarefe não viu os olhos embaciados do boi. Não sei, acho que poderia ser perigoso. Ou talvez fosse apenas supersticioso. Limpou a pistola, sem prestar atenção no bicho e ajeitou os fones de ouvido por baixo do abafador.
Você trabalha faz tempo aqui? “Pouco mais de ano.” Por que você usa fones? “Não quero ouvir o que não me agrada.” E o que seria isso? “A queixa desse animal.” É possível ouvir mesmo com o abafador? “É…o que a gente vê a gente ouve. Não precisa de falar.”
Isso acontece sempre? “Não…”A última vez faz muito tempo? “Tem mês.” O que aconteceu? “Comecei a usar fone de ouvido.” A música sertaneja amortecia a realidade, e o rapaz, a serviço de quem pode, dissimulava a brutalidade.
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