Pintura: Dana Ellyn

Quando chegou em casa para o almoço, encontrou um porco na cozinha. Corpulento, ia de um lado para o outro e o observava.

Sangrava onde faltava um pedaço de gordura subcutânea. De repente, o porco esfregou-se na parede e no chão para tentar aliviar a dor da parte faltosa.

A situação só piorou. Tentou aproximar-se do porco. Ele recuou de medo e, com a pressão e agitação, um pedaço de gordura subcutânea caiu.

Lembrou do bacon que guardou na geladeira. Mas aquele pedaço causou-lhe desagrado e repulsa. Virou o rosto de lado. Não queria ver. Tapou os ouvidos para não ouvir seus gemidos.

Continuou assim por alguns minutos, aguardando o sumiço do porco e daquela parte indesejada e molhada de sangue caída no piso claro.

Isso não ajudou. Não saberia dizer o que sentiu. “Como dizer?” Teve impressão de que a estrutura da cozinha cairia ou o chão se abriria e, mesmo com os ouvidos cobertos pelas mãos, sentiu algo estridente atravessando os vãos dos dedos.

O coração disparou. “De onde veio esse porco?” “Por que logo aqui?” “Quem será que fez isso?” “Por que isso acontece comigo?” “De onde vieram essas vozes?” “São minhas?” Quem são vocês?” “Só quero que isso acabe.”

Os sons desapareceram. Olhou em volta e não viu o porco. Abriu a geladeira e não havia bacon.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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