Nos anos 1960, quando meu pai ainda era garoto, ele conheceu um senhor sérvio de Novi Pazar. Seu nome era Dalibor, mas como poucos sabiam pronunciá-lo, logo deram-lhe o apelido de Dabo.
Era um senhor de meia-idade, olhar quiescente e barba ruça que pouco falava português. Nunca reclamava de nada para ninguém, e tinha maneira ímpar de demonstrar respeito diante das contrariedades.
Dabo não se alimentava de animais; consumia mormente o que plantava em sua chácara. Alguns o chamavam de estrambótico, esquisito e místico. Nem se abespinhava diante das provocações. Ele não se importava – nunca. Às vezes, jogavam pedaços de animais mortos em seu pomar, entre os pés de mirtilo.
Antes de recolher aqueles corpos mortos, ele sempre se ajoelhava, encostava a ponta do nariz na terra virgem e se desculpava enquanto mantinha uma das mãos sobre o corpo desfalecido – ou parte do que um dia foi um corpo. O ritual se repetia – um de cada vez. Então recolhia os animais e os sepultava.
Os episódios prosseguiam e, em vez de reclamar ou denunciar os autores, logo transformou parte da chácara em um cemitério de animais. Alguns vizinhos começaram a se queixar, mesmo na inexistência de mau cheiro ou qualquer laivo cadavérico. Numa noite de outono, convidaram Dabo para um grande churrasco em um sítio vizinho.
Quando a fumaça da churrasqueira começou a subir, ele a observou e se afastou a passos suaves. Algum tempo depois, perguntou se alguém sabia a quantidade de carne que seria assada naquela ocasião e que tipo de carne.
Agradeceu e retornou para casa. Caminhou até o cemitério de animais e acendeu uma vela para cada quilo de carne. Havia muitas; as labaredas ganharam vida e iluminaram o céu da chácara. Tudo ao redor era escuridão. A fumaça da churrasqueira mirada ao longe vanesceu-se de súbito.
Muitas pessoas se aproximaram e o assistiram. Dabo, de olhos fechados, nem se moveu. Continuou de joelhos honrando a vida e a morte. Abriu a boca por um momento e disse: “Svetlost poštovanja je bombardovanje volje” – “A luz do respeito é o bombardeio da vontade.”
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