Categorias: Contos e Crônicas

A violência vendida no açougue vem da conveniência

Fotos: iStock/Aitor Garmendia

Fora da fila, ficou parado em frente ao açougue do supermercado observando os quadros na parede. Pouco acima de um grande “Agradecemos a preferência” havia uma sequência de fotos emolduradas de animais em belos campos. Nenhum transmitia expressão de desconforto.

Achou aquilo intrigante, porque a poucos metros dali partes daquelas criaturas recheavam a vitrine e os sacos plásticos, e não conseguia ignorar o som da serra fita fatiando pedaços grandes de costela. Sentiu cheiro de osso e viu farelos no ar, logo pousando sobre uma pequena porção do balcão.

Olhou em volta e percebeu que sua observação dos quadros e de tudo que acontecia era solitária. Ninguém mais se importava. “Talvez seja coisa que atraia apenas a curiosidade de algumas crianças.” E o estranhamento continuou.

Não entendia por que no açougue as pessoas não viam o contraste entre aqueles animais nas imagens e os seus destinos. “Quem diria que morrer para acabar neste lugar é o desejo daquelas criaturas que não aparentam infelicidade nas fotos? Muito pelo contrário…” Cada cenário idílico…

Concluiu que era uma exposição bastante ridícula de imagens – algo vilmente capcioso e desrespeitoso. “Parecem fotos de animais de santuários, não criados para consumo. Será que seriam capazes de usar esse tipo de imagem? Quem garante que não?”

Todos transmitiam sensação de liberdade, aspecto sadio que enche os olhos e expressão de contentamento – algo tão ausente de franco sentido contextual.

“Realmente acreditam que os animais morrem felizes por nós? Creio que não, mas acho que fingem que sim…e a dissimulação estética sempre ajuda.” Ficou irritado ao olhar em volta e perceber mais uma vez como as pessoas não reagem com estranheza diante das maquinações, das inverdades. Respirou fundo e se acalmou.

“É o tipo de incentivo que mesmo na impercepção é um regozijo para o cruento apetite da humanidade. Não importa o que se vê ou o que se é, basta estar lá, pra ludibriar e perpetuar. E se isso massageia nosso estômago e abre nosso apetite, quem se dispõe a mudar? Como é valioso um outro olhar…que não afugenta a verdade.”

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David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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