Meio Ambiente

Agropecuária está acelerando perda global de solo fértil

Gado confinado e solo degradado no entorno, realidade cada vez mais comum (Foto: Fábio Nascimento)

Uma estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que em 25 anos a degradação do solo no mundo pode reduzir a produção global de alimentos em até 12% e levar a um aumento global do preço dos alimentos de até 30%. É um cenário preocupante, já que a população até lá deve chegar a pelo menos nove bilhões.

Essa projeção é amparada em um levantamento da ONU que destaca que o planeta está perdendo 12 milhões de hectares de solo fértil ao ano. Mas quais são os fatores que têm acelerado esse processo? Degradação da terra, seca e desertificação.

Não é de hoje que a ONU aponta que as mudanças climáticas aceleram, a biodiversidade diminui e as doenças infecciosas propagam-se ainda mais com a perda acentuada de terra fértil.

“Tudo isso coloca em risco o abastecimento de água, os meios de subsistência e a nossa capacidade de enfrentar desastres naturais e eventos climáticos extremos”, informa.

Ainda assim, hoje pouco se fala sobre o impacto da agropecuária também para além do desmatamento, ou seja, sua associação com a degradação do solo. Afinal, não há como ignorar isso, já que a agropecuária é o conjunto de atividades que ocupa maior quantidade de terras agricultáveis no mundo – chegando a 80%.

Degradação e mau uso da terra

Sobre a realidade brasileira, um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) já revelou que o Brasil tem mais de 350 milhões de hectares ocupados por atividades agropecuárias. Desse total, 200 milhões são apenas de pastagens, e um grande percentual dessas áreas já sofre as consequências da degradação associada ao mau uso da terra.

Na década passada, quando a produção agropecuária era menor em relação à atual, a divisão de monitoramento por satélite da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) revelou que de um total de 172 milhões de hectares de pastagens avaliadas, mais de 60% já estava em estágio de degradação. Isso pode explicar o crescente interesse de agropecuaristas de várias regiões do Brasil pelas terras ainda virgens da Amazônia e o interesse na flexibilização do licenciamento ambiental.

Em 2019, o especialista em solo e paisagem do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Abdelkader Bensada, alertou que estamos perdendo solo em áreas agrícolas 10 a 40 vezes mais rápido que a taxa de sua formação, comprometendo a segurança alimentar da humanidade.

Consequências que devemos considerar

“Um quarto da superfície da Terra já está degradada”, alertou, referenciando o relatório “Climate Change and Land”, publicado pela ONU no mesmo ano, e chamando a atenção para uma perda de solo fértil anual equivalente ao tamanho da Grécia.

Na mesma época, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) destacou que 33% do solo global está degradado. Com o papel determinante da agropecuária nesse processo, é válido lembrar também sua contribuição de 14,5% nas emissões globais totais de gases de efeito estufa.

Com base nesses dados, não tenho dúvida de que precisamos mudar com urgência, e podemos contribuir modificando nossos hábitos alimentares. Ou seja, não consumindo os produtos que exigem mais recursos naturais, mais desmatamento, que favorecem degradação do solo, mais prejudicam a biodiversidade e, por extensão, tendem a criar um cenário de maior surgimento de doenças infecciosas e maior insegurança alimentar.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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