Anchor: “Há um milhão de razões para ser vegano”

"Sinto que é importante que a cena hardcore seja um espaço onde os jovens conheçam o veganismo e se envolvam com isso”

Claes: “Ter estupro e assassinato como premissa para ter comida sobre a mesa é absolutamente desnecessário” (Foto: Divulgação)

Fundada em Gotemburgo, na Suécia, em 2007, a banda de hardcore Anchor é formada somente por músicos suecos e noruegueses que são veganos e straight edge. Ao longo dos anos, o grupo que já tocou na América do Sul com o Ratos de Porão, participou de ações em parceria com inúmeras organizações em defesa dos direitos animais, como a sueca Förbundet Djurens Rätt (Federação dos Direitos Animais).

“Fazemos tudo que podemos em nossos shows para chamar a atenção para o veganismo. Estou feliz por fazer parte desse movimento. Cada pequena coisa que podemos fazer para aumentar a conscientização significará algo para alguém em longo prazo”, disse o vocalista Claes em entrevista ao The Grumpy Sailor.

“Há sempre jovens que não foram expostos a essas questões tanto quanto podemos imaginar. É fácil pensar que todo mundo tem entendimento dos direitos animais, mas infelizmente não é assim, mesmo em uma comunidade de pensamento progressista como a nossa.”

Entre os anos de 2008 e 2015, o Anchor lançou os álbuns “The Quiet Dance”, “First Year”, “Recovery” e “Distance & Devotion”. Este último conta com uma música intitulada “Hope Dies Last”, que fala sobre o estado atual do planeta e a luta por um mundo mais compassivo. “As primeiras linhas começaram como uma canção sobre a minha pequena Ebba. Mas depois de reescrevê-la inúmeras vezes, acabou ficando um pouco diferente”, informou.

Ebba é uma cachorrinha que Claes adotou em Málaga, na Espanha, quando estavam em turnê. A adoção foi feita por meio da organização SOS Animais, que costuma resgatar animais abandonados ou que nasceram nas ruas. “Ela tinha uma história diferente. Veio de um criador que estava abusando de seus cães. Ela mal estava viva quando os voluntários a tiraram dele”, confidenciou ao Grumpy Sailor.

“Foi quando decidi mudar minha vida”

Claes recordou-se também que durante a Anchor South American Tour, eles viram um monte de cães abandonados. Em uma noite, em uma cidade do Sul do Chile, ele sentou-se diante de uma estrada com uma cadelinha em seu colo e notou em seus olhos que ela não queria que ele fosse embora. Como Claes não podia levá-la, ele chorou. “Tirei algumas fotos para me lembrar dela. Acho que foi quando decidi mudar minha vida e tomar conta de um cão”, revelou.

Com Ebba em casa, Claes viu sua rotina se transformar. Seus dias ficaram mais divertidos e a cadelinha levou tanta positividade para sua vida que ele se surpreendeu. “Trabalho em meu escritório e passo o tempo com ela ao meu lado. Saímos na natureza o máximo que podemos. Me sinto abençoado, não de forma religiosa, por tê-la em minha vida”, enfatizou.

Influenciado por bandas como Good Riddance, Entombed, Separation, 108 e Robyn, o Anchor pratica um som inovador e ao mesmo tempo fiel à velha escola do hardcore punk, inclusive ideologicamente.

Questionado pelo DIY Conspiracy sobre sua opinião em relação a jovens veganos e straight edge que compram produtos da Nike e da Coca-Cola, ele disse que isso não o agrada de modo algum, já que as duas, assim como outras multinacionais, representam o capitalismo global que contribui tanto para a exploração de vidas humanas quanto não humanas.

“Eu quero vê-las destruídas mais do que qualquer coisa. Mas eu também sei que o hardcore não é onde a revolução dará seus primeiros passos. Para muitas pessoas, é apenas música, é sobre assumir uma aparência em vez de ideias. Acho isso muito triste. Contudo, a única coisa que eu como indivíduo posso fazer é ser um exemplo positivo e inspirador, eu acho”, declarou.

Cena hardcore e veganismo

Ao DIY Conspiracy, Claes explicou que os direitos animais e o veganismo são muito importantes, tanto para ele quanto para o Anchor, no entanto, eles preferem voltar seus esforços para que sejam reconhecidos sempre como uma força positiva. “Pode ser que nosso trabalho não seja nada se comparado ao que outras pessoas fazem pela libertação animal, mas eu sinto que é importante que a cena hardcore seja um espaço onde os jovens conheçam o veganismo e se envolvam com isso”, assinalou.

De acordo com Claes, os integrantes do Anchor reconhecem a vida dos animais como sendo somente deles, o que é um motivo mais do que justo para não consumirem produtos de origem animal. “Se é um produto pago ou não, não tem qualquer relevância para nós. Acho muito triste quando as pessoas viram as costas para elementos positivos em suas vidas, como o veganismo e o straight edge”, recomentou.

“Acho que há um milhão de razões para ser vegano, e é algo que não pode ser negado. Para aqueles que ainda não são veganos ou vegetarianos, por favor, façam um favor e eduquem-se. Você ficará chocado e horrorizado com o que está acontecendo.”

Uma vez, enquanto conversava com seu irmão sobre veganismo, Claes ponderou o quão insana é a realidade de ter a morte como parte da realidade diária. “Ter estupro e assassinato como premissa para ter comida sobre a mesa é absolutamente desnecessário”, criticou.

Ele se referiu aos animais que têm suas vidas interrompidas precocemente em matadouros; e também àqueles que são explorados a vida toda, tendo sua intimidade invadida e sua sexualidade banalizada e violada exaustivamente, como ocorre com as vacas condicionadas a atenderem a demanda por leite e derivados. Claes lembrou em entrevista ao DIY Conspiracy que nos anos 1990 a Suécia teve um dos cenários de libertação animal mais ativos da Europa, o que abriu caminho para mudanças positivas.

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