Animais querem gratidão por comê-los?

Ou a preferência é por não ser morto? Uma reflexão a partir da série “Six Feet Under”, em que uma família “agradece aos animais por comê-los”

No último episódio da quinta temporada da série “Six Feet Under”, David (Michael C. Hall), Keith (Mathew St. Patrick) e seus dois filhos estão diante de uma mesa. David diz: “Agradecemos aos animais que deram a vida para que possamos comê-los.”

O primeiro problema a ser apontado nesse “agradecimento” é que os animais não dão a vida para que alguém possa comê-los. Isso ocorre de forma arbitrária, contra a vontade do animal.

O “dar” então não pode ser interpretado honestamente como realidade, a não ser que um animal se oferecesse para ser morto para consumo humano, e não imagino que alguém possa dar um único exemplo disso.

O uso do “dar a vida” é somente uma forma conveniente de fazer parecer menor o impacto da responsabilidade humana em relação ao que é imposto a esses animais.

Há uma consideração em forma de um suposto “dignificar a morte”, mesmo que não se fale em morte e que essa dignificação, por contradição, seja uma forma extrema e violenta de privação.

É mais fácil crer que os animais “dão algo” do que reconhecer que eles são privados de algo, e nesse exemplo, da própria carne, do corpo, da vida. Mas o entendimento do dar é eufemista, uma romantização, e coloca os animais em condição de criaturas auto-ofertáveis.

Assim persiste a corrente crença do animal vitimado como criatura que nasce para fazer o que deve fazer com base na determinação humana, e como se fosse a sua própria, porque ele não deve ser reconhecido fora dessa determinação.

Do contrário, seria preciso reconhecer que o animal é sujeito de interesse conflitante ao humano. Portanto seria preciso anular o sentido de uso do “dar”, que é naturalizado para que a consciência humana não seja perturbada. Nisso há então um subverter, porque “dar” é o oposto do que realmente ocorre.

Mesmo em relação aos outros alimentos de origem animal, o “dar” também não faz sentido, porque nada disso é realmente dado. Não existe um sentido de entrega por parte do não humano ao humano e como ação espontânea e intencionalmente direcionada.

Enfim, o “dar” é o sentido atribuído para que o que é feito com outros animais pareça menos grave do que é. E muitas pessoas acreditam nisso e porque querem acreditar nisso.

A série está disponível na Netflix e na HBO Max.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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