Opinião

Até quando aceitaremos tanta crueldade contra os animais?

Você diria que é aceitável a debicagem de pintinhos com menos de dez dias de idade na indústria de ovos? (Fotos: Acervo PETA)

Vivo em um país que tem uma Constituição que desde 1934 diz que “todos os animais aqui existentes são tutelados do Estado” e que aquele que, em lugar público ou privado, aplicar ou fizer aplicar maus-tratos aos animais será punido. Temos também a famosa Lei dos Crimes Ambientais, de 1998, que na teoria prevê algo inexistente na prática em relação à maioria dos animais.

Como ver de outra forma uma legislação em defesa dos animais que na realidade não defende os animais? Que não coíbe crueldade ou maus-tratos, que não garante bem-estar animal. Quando reflito a respeito, reconheço como situações corriqueiras são ao mesmo tempo tão absurdas. Por exemplo, você diria que é aceitável a debicagem de pintinhos com menos de dez dias de idade na indústria de ovos?

Quando vejo qualquer imagem desse tipo de prática tão comum no mundo todo, imagino como seria alguém segurar minha cabeça e encostar minha boca ou a ponta do meu nariz em uma chapa quente o suficiente para mutilá-los. Como seria ter meus sentidos prejudicados porque alguém decidiu que a minha vida, avaliada como produto, deve ser condicionada a uma violação e violência em benefício dos outros?

Isso nos meus primeiros dias de vida. Afinal, um pintinho que passa pelo processo de debicagem é uma criança de outra espécie. Jamais aceitaríamos qualquer mutilação contra crianças humanas, mas não vemos problema nessa imposição a quem não é humano.

A sociedade diz que é adequado fazer isso em prol da manutenção da produção de ovos. “Afinal, essas crianças crescerão e, em consequência do ambiente em que vivem, ficarão estressadas e poderão atacar umas às outras na fase de desenvolvimento.” Quem não ficaria agitado, incomodado e estressado em viver em um pequeno espaço? Como uma gaiola.

Então com 18 semanas de idade, sua vida resume-se a botar ovos. Botar, botar e botar até não poder mais. E assim que uma poedeira deixa de ser vista como rentável com vida, a exploração final vem com a morte, quando a retribuição pelos ovos, que nada mais são do que resultado de sua ovulação, é o abate e a venda de sua carne. Só no Brasil, mais de 70 milhões de galinhas vivem em gaiolas de bateria. Imagine se você fosse uma delas.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

O bezerro no prato e o som de tripa de carneiro

Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…

1 semana ago

O abate que (quase todos) ignoram

No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…

2 semanas ago

Uma reflexão sobre a violência por trás do leite

No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…

3 semanas ago

Por que ser cruel com os animais?

Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…

4 semanas ago

Ser vegano “é coisa de mulher”?

Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…

1 mês ago

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

2 meses ago